TODO O TERRENO | Projetos Inovadores e/ou Experimentais na Área Social | Território Brincapé | APSI |

Embora ainda faltassem alguns minutos para as 10h da manhã, o sol de verão já se fazia sentir, forte e quente, na histórica Vila Cândida, bairro operário na Penha de França, em Lisboa.

A equipa da Rede DLBC Lisboa foi visitar o “Brincapé – Território do Brincar”, o PIEAS (Projetos Inovadores e/ou Experimentais na Área Social) da APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil.

Quando chegámos ainda não havia “fregueses”, só mesmo as “brinconautas” da 1,2,3 Macaquinho do Xinês, associação parceira responsável pela dinamização do espaço.

Passado pouco tempo, mais ou menos alinhado e com monitoras, chega um primeiro grupo de crianças. A primeira reação, quando nos viram: “ena, hoje há tantas professoras!”

Pousam as mochilas e espalham-se rapidamente pelo espaço, tornando-se percetível que não é a primeira vez que brincam ali. O silêncio desaparece e dá lugar a risos e conversas, gritos, manifestações de alegria…

O “Brincapé” não é um local “convencional” de lazer, é um espaço comunitário inovador onde as crianças criam e constroem o seu próprio parque de brincadeiras, treinando competências essenciais para o seu sucesso escolar e para a sua futura vida profissional. A imaginação é estimulada, uma vez que os mais novos têm a oportunidade de interagir e brincar, ao ar livre, mexer na terra, cavar, fazer bolos de lama, construções…

“Podem fechar o telhado da minha casa?”, solicita-nos uma pequenita de uns 5/6 aninhos, dentro de uma grande caixa de cartão sem fundo, usando uns sapatos de salto vários números acima do tamanho dela. “Mas assim ficas aí dentro sem luz”, lá fomos avisando, visto que não havia buracos para uma porta ou janelas. Nada que a atrapalhasse. Depois de lhe termos feito a vontade, levantou a caixa, saiu por baixo e procurou rapidamente giz para escrever o seu nome numa das “paredes” da casa, para que todos soubessem que era a proprietária, claro!

“Brinconautas”

“Os restaurantes também estão muito na moda, por aqui”, vai-nos confidenciando Rita, uma das “brinconautas”. “Por norma, não interferimos nas brincadeiras deles, nem é suposto, a não ser que nos solicitem ou queiram ajuda. Mas com os restaurantes, muitas vezes, pedem-nos que sejamos clientes”, esclarece. Sandra Nascimento, presidente da direção da APSI, reforça esta ideia. O que os “brinconautas” fazem “é uma supervisão amigável, ou seja, a brincadeira não é guiada, selecionam e dispõem os materiais, antes de a sessão começar e arrumam no final, verificando se há alguma coisa estragada e que tenha de ser retirada. O segredo é deixar os materiais ‘plantados’ estrategicamente… muitas vezes em modo desafio”, vai explicando. “Tentam não intervir, a não ser que a criança peça. E elas já sabem disso. Quando precisam de ajuda, não hesitam e também quando querem materiais ou fazer atividades específicas. Ainda noutro dia, dois dos mais velhinhos quiseram martelar. As ‘brinconautas’ aproveitaram para ensinar o uso seguro do martelo, uma criança de cada vez, onde têm de pôr as mãos, no martelo e no prego, que não podem martelar os materiais em cima das pernas…” Na verdade, hoje em dia, “os miúdos também não têm oportunidade de fazer este tipo de coisas e, claro, não sabiam como haviam de pegar, se faziam com muita força, com pouca. Isto, especificamente, tem de ser com supervisão e com controlo mais próximo…”

Construir e aprender ao ar livre

“Este conceito de brincadeira livre quase parece um pleonasmo, porque é assim que ela tem de ser, mas o que acontece é que, atualmente, está dirigida demais”, ressalta a Presidente da APSI.

“Ao princípio, os que vêm aqui pela primeira vez, perguntam muito o que podem fazer. Podem brincar? Podem sujar-se? Normalmente, é-lhes dito o contrário… aqui, a criança decide, livremente, ao que quer brincar, com que materiais e com quem. E, claro, pode sujar-se!”, explica-nos Sandra,enquanto presenciamos escavações no terreno, com os pequenos com terra e água nas mãos, brincando, despreocupados. Ai, a minha mãe vai matar-me, estou toda suja, dizia uma menina noutro dia. Eles, ao princípio, ficam um bocadinho aflitos com a questão do sujar… Mas gostam muito de fazer lama…”

Tirar as crianças dos ecrãs (TV, computadores, telemóveis, tablets…) e do sofá e pô-las a brincar, a construir e a aprender ao ar livre, com o apoio de profissionais do brincar e da segurança infantil, pretende ser um dos grandes objetivos deste projeto da APSI.

E basta olharmos para o “Brincapé”, recheado de materiais de desperdício, de “tralha”, com as suas tendas improvisadas, cartões, cordas, lonas no chão, tubos, pneus coloridos, tintas, tijolos (de cortiça), garrafas de plástico, baldes, pás, paletes, caixas, regadores e outro sem número de coisas… e para os sorrisos nas caras das crianças, para percebermos que cumpre na perfeição aquilo a que se propõe.

Funcionamento do espaço

Enquanto as “brinconautas”, de borrifador em punho, vão salpicando os miúdos e dizendo que é chuva, para combater o muito calor que se sente, mesmo à sombra, andámos pelo espaço, explorando os recantos e as atividades que vão decorrendo, fruto da imaginação de cada um. De repente, ouve-se a voz de uma das monitoras que avisa: “pausa para lanche!”. Alguns saltam, entusiasmados, concentrando-se na zona da comida e sentando-se no chão, em cima da lona, para a refeição ligeira, mas outros nem sequer querem largar as brincadeiras e permanecem nos seus postos.

Pausa para lanche!

O público-alvo tem entre os 5 e os 13 anos, e frequenta o espaço em horário letivo, com as escolas, nas interrupções escolares com os CAF (Componente de Apoio à Família) e/ou ao fim de semana com as famílias.

Durante a semana, o “Brincapé” recebe turmas da EB1 Natália Correia. Nas férias, foram também realizadas sessões com os CAF da EB1 Sampaio Garrido e EB1 Arquitecto Victor Palla, como no dia em que visitámos o espaço.

“Desde novembro, todos os domingos, tivemos sessões abertas, em que as pessoas não precisam de se inscrever. Algumas vêm com frequência, outras não voltam… Com as famílias, têm vindo muitas crianças mais novas do que as do escolar. Até já tivemos aqui bebés”, revela Sandra Nascimento. “Também há pais que trazem os filhos, porque que estão à procura de oportunidades diferentes, de lamas e terra e contacto com bichinhos e os mais pequeninos, aqui, andam para lá e para cá a mexer nisso tudo”.

E, embora, por agora, o “Território Brincapé” vá entrar de férias e só regresse em setembro, a presidente da APSI confidencia que já há planos traçados: “Está tudo encaminhado para integrarmos as atividades do ATL do Centro Social e Paroquial da Penha de França.”

“Eles adoram”

O “Território Brincapé” arrancou em novembro de 2021 e, no total, e até final de junho de 2022, foram realizadas 71 sessões e abarcadas mais de 460 pessoas dos BIP ZIP abrangidos, das quais 61% foram crianças.

Depois de uma primeira fase de preparação e organização, que incluiu a obtenção da licença para utilização do terreno e do estabelecimento de parcerias locais essenciais para a sua limpeza e manutenção, foi preciso adaptar o espaço às atividades programadas. Assim, a APSI procedeu à construção de uma vedação que garantisse a proteção de todos relativamente a quedas e colocou um abrigo para o armazenamento dos materiais no Território.

No que diz respeito aos materiais que podemos encontrar espalhados pelo “Brincapé”, “são feitas recolhas, há parceiros que doam material, as caixas, os têxteis, os pneus… Os toldos também são emprestados”, revela Sandra Nascimento.

Mas, no final, o que quisemos mesmo saber, para perceber se confirmávamos ou não aquilo a que assistimos nesta manhã de brincadeira, foi qual é o feedback das crianças em relação a este espaço e às atividades. A presidente da APSI é perentória… “Eles adoram! Quando chegamos às escolas ficam entusiasmados, começam logo a dizer ‘ai, que bom! Hoje é dia de Brincapé!’”

AAH

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