[Entrevista] Amigos B2M: 2 de maio todos os dias

Sandra Alves até pode ter saído do bairro a espaços para alargar horizontes profissionais, mas o bairro nunca sairá dela. Também por isso está envolvida de corpo e alma na Associação Amigos 2 de Maio. Preparou um discurso escrito para um painel do Fórum Urbano subordinado ao tema “O lugar da Participação nos Processos de Inovação Social”, mas prescindiu das cábulas para partilhar a sua experiência associativa de cor e salteado, porque vive e conhece o bairro e a associação que preside como quem respira. O seu discurso, genuíno e inspirador, foi um dos mais aplaudidos da manhã. À margem deste ciclo de conversas sobre o desenvolvimento local (que aconteceu em Benfica no passado dia 28 de fevereiro), entrevistámos a Sandra para conhecermos melhor o nosso associado da Ajuda.

 

Desde que foi criada a Associação Amigos 2 de Maio há três anos, que evolução notou a nível de participação cívica no Bairro 2 de Maio?

A participação cívica é muito na base da família. As crianças têm as suas atividades e as festas temáticas – no início com muito pouca afluência, mas neste momento conseguimos sempre casa cheia em dias de festa.

Na altura das férias, no ano passado, fomos para o Parque de Campismo de Monsanto. Os meninos ficaram lá a dormir, foram à piscina, etc., e foi a própria população que se encarregou de se revezar no transporte e na alimentação das crianças. Os pais faziam os almoços e jantares e iam lá entregar. Houve todo um envolvimento da comunidade na logística em prol do bem das crianças em período de interrupção letiva.

 

Como foi possível dar este “pequeno grande passo”?

É dar murro em ponta de faca. É ter muitas vezes a porta aberta, estar a trabalhar com os miúdos, enviar dezenas de papéis [a divulgar] festas das crianças. Nós tivemos uma festa de Natal há dois anos em que chorámos mais do que nos divertimos.

As crianças tinham estado a preparar um musical com cenários e no início tínhamos uma mãe presente! Felizmente a coisa compôs-se, mas foi um momento muito doloroso, especialmente por vermos a tristeza deles.

 

Que lição tiraram dessa experiência?

Não podemos fazer festas fora do bairro, vamos fazê-las dentro do nosso bairro, na nossa casa, a Casa para Todos, porque realmente aquele é o nosso polo, o ponto de encontro.

Quando conseguimos a participação dos adultos, das famílias, é sempre através da franja infanto-juvenil, de atividades e animações socioculturais que vamos apresentando à comunidade.

 

A associação funciona à base do voluntariado…

Os nossos voluntários andam na faixa dos 16 aos 23 e são do bairro.

 

É importante essa autorepresentação.

Ninguém é associação. Está na associação e a nossa vontade é que seja dada continuidade por pessoas do bairro.

 

Quais os principais problemas a resolver no que diz respeito ao público infanto-juvenil com quem trabalham?

O nosso grande foco é capacitar as nossas crianças e jovens, trabalhar as habilidades naturais deles, dar-lhes outros conhecimentos a nível das ciências experimentais, porque é algo inovador, que os motiva a participar, lhes desperta curiosidade, que alarga horizontes. Eles têm a felicidade de ter uma monitora que trabalha na Ciência Viva. Os mini-science shows são inspirados no trabalho desta monitora.

 

Que resultados esperam deste investimento na capacitação a longo prazo?

Quero crer que o resultado do trabalho que estamos hoje a fazer dará frutos no futuro.  Daí resulta a mobilidade social.

 

Estas crianças e jovens estão a ter acesso a ferramentas que os pais não tiveram.

Vão ter uma instrução maior do que aquela que os pais têm. Logo provavelmente terão melhores trabalhos, melhores salários, outro tipo de ofertas e procuras…

 

O que pode implicar a saída do bairro…

Algo que trabalhamos muito é a nossa identidade. Saindo, pode voltar. Eu sou o caso disso. Emancipei-me, tive o meu percurso académico. Por razões de saúde da minha mãe eu estou praticamente sempre no bairro. Nunca saí da freguesia. Não é em vão que o nosso grito para tudo “É quem manda aqui? É B2M”. É importante ser do bairro. O projeto “2 de Maio todos os dias” trouxe-nos o orgulho de ser do bairro. Durante muito tempo havia uma certa vergonha de se dizer que se morava no bairro. Isso já foi ultrapassado.

 

Falamos de um grupo de que dimensão?

É um grupo de 25 crianças, mas essas 25 crianças têm um alcance nas escolas adjacentes. Os valores e ensinamentos passados nas nossas atividades levam-nos para casa e para a escola.

 

Podem levar inclusive para a escola experiências que outras crianças não têm…

Daí a nossa missão “Crianças diferentes, oportunidades semelhantes”. Havia crianças que chegavam e diziam “Não percebi nada do que o professor disse. Falou da globalização, da ida a Londres, e eu fiquei a olhar ‘o que é isto?’”. Outro [episódio]: um menino disse que os outros contavam muitas histórias de ida à Disneylandia e ele disse ‘e eu fui ao Mini-Preço novo’”. No horizonte [daquela criança] aquilo era importante.

 

Como é que a participação e o envolvimento cívico têm contribuído para mitigar os problemas no território em que intervêm os Amigos?

Temos muitas mães que trabalham em horários noturnos. As crianças saiam da escola e ficavam ali na rua, um bocadinho ao deus-dará. Neste momento, as mães estão nos seus trabalhos descansadinhas porque sabem que pelo menos até às 19h elas estão ali protegidas, acompanhadas, a fazer coisas positivas para a vida delas. Elas reconhecem esse trabalho e agradecem-nos por isso.  Esse é um grande fator de avaliação do nosso impacto dentro da comunidade. As pessoas já não se queixam que os miúdos andam a partir um vidro, por exemplo. Isso deixou de existir.

 

Já se vislumbram alguns líderes comunitários?

Quem está no terreno todos os dias são pessoas do bairro. Uma é engenheira, outra é auxiliar da ação educativa, temos voluntários que também são do bairro, que nos dão apoio nas saídas. São vistos como referências para os mais novos, porque cada um pratica o seu desporto ou toca o seu instrumento, são alguém que eles querem seguir. E acabam por ser referências para outros da sua idade.

 

Têm desenvolvido parcerias com instituições à vossa volta.

Com a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa de vez em quando fazemos umas prototipagens. A Junta de Freguesia [da Ajuda] tem sido nossa parceira. Se temos um rebentamento de um cano ou [problemas com] uma fossa ou uma porta que avariou, imediatamente a Junta de Freguesia nos socorre.

 

E depois têm uma relação muito especial com a Locals Approach.

A Locals Approach foi o ponto de partida para os projetos BIP/ZIP. Houve um projeto [na Ajuda] que foi interrompido de uma forma abruta, mas o Gonçalo [Folgado, da Locals] nunca saiu do terreno, porque achou que deveria continuar ali. À nossa escala micro conseguimos fazer uma espécie de BIP/ZIP ad hoc.

 

Como é que uma ferramenta como o Fórum Urbano vos pode auxiliar?

Para o território do bairro apresentámos três projetos e ao nível da sustentabilidade e inovação a avaliação não foi a melhor. Vamos beber da informação desta plataforma e tentar perceber o que é isto da inovação e sustentabilidade, que para nós tem um sentido – a nível da educação é a longo prazo.

 

Pode contribuir para a associação dar um passo em frente?

Sim, porque queremos atingir outros públicos e melhorar a vida do espaço onde vivemos.

 

 

 

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