[Entrevista] AAMA há dez anos a adaptar Portugal à diferença

Fundada há precisamente dez anos, a Associação de Atividade Motora Adaptada (AAMA) intervém nos domínios desportivo, terapêutico, artístico, recreativo, educacional e formativo. Neste momento tem dez programas em curso, entre eles a natação adaptada, as artes marciais adaptadas e o sapateado adaptado. Vamos conhecer melhor este associado da Rede DLBC Lisboa que para 2019 tem o sonho de criar um projeto de integração de jovens com deficiência mental no mercado de trabalho e uma equipa de competição de natação adaptada?

 
A AAMA apoia populações com deficiência e outras necessidades especiais. Em traços gerais, quais são as principais valências da associação?

A AAMA tem neste momento 10 programas a funcionar: Natação Adaptada, Artes Marciais Adaptadas, Psicomotricidade, Sapateado Adaptado, Colónias de Férias Abertas, Fechadas e Inclusivas, Intervenção Intensiva Precoce, Intervenção Escolar e Domiciliária e Comportamento Adaptativo.

Em todos os programas o apoio é individual, ou seja, cada aluno tem um técnico só para si permanentemente.

 

 

Que feitos/projetos salientariam nestes dez anos de atividade?

Todos os projetos foram muito importantes para nós pelas suas caraterísticas únicas tendo tido muito impacto na melhoria de vida das nossas crianças com necessidades especiais.

Natação adaptada: Começámos com um programa com 6 alunos, numa piscina, 1 vez por semana. Neste momento temos 6 piscinas, 6 equipas (30 técnicos) com cerca de 140 alunos a funcionar em piscinas que alugamos em Lisboa, Odivelas e Setúbal. Temos ainda uma parceria com a Câmara Municipal de Lisboa no âmbito do projeto de Educação Física curricular, com 9 técnicos, desde 2012, em que lecionamos aulas de natação adaptada a alunos com necessidades especiais que se encontrem a frequentar as escolas oficiais do primeiro ciclo do ensino básico em que servimos cerca de 80 alunos/ano. Conseguimos crescer e manter qualidade de serviço sendo que cada piscina tem uma equipa de 3 a 6 técnicos que dão aulas com apoio individual e um coordenador em permanência no cais de piscina para organizar as aulas e fazer a “ponte” entre os pais e os alunos.

Artes marciais adaptadas: Começámos com um programa de karaté adaptado, mas neste momento temos 2 técnicos que lecionam Muay thai adaptado a 12 crianças. Este programa é único em Portugal em que crianças com necessidades especiais aprendem esta arte marcial milenar de uma forma adaptada com apoio individual.

Sapateado adaptado: Este projeto foi inicialmente financiado pelo LIDL através do prémio “Mais para todos”. Atualmente é financiado pelo prémio BPI Capacitar e são lecionadas aulas de sapateado em regime inclusivo, num sistema de pares tutores, a crianças com deficiência auditiva e deficiência visual. Este programa é feito em parceria com o Instituto Jacob Rodrigues Pereira e com a Escola Básica do Bairro do Armador.

Colónia de férias: Começámos em 2009 com uma colónia de férias fechada para 4 crianças com 6 monitores. No verão passado organizámos 5 colónias de férias, dando oportunidade a 125 crianças, jovens e adultos com necessidades especiais de poderem participar numa colónia de férias adaptada às suas capacidades, com apoio individual permanente. Contámos com uma equipa total de 28 coordenadores e160 voluntários.

Organizamos as colónias abertas e fechadas que são exclusivas para crianças, jovens e adultos com deficiência. Temos também as colónias inclusivas para jovens com deficiência visual num sistema de pares tutores, em que cada jovem cego é acompanhado por um jovem da mesma idade sem qualquer tipo de deficiência.

Intervenção Intensiva precoce e Intervenção escolar e domiciliária: Este programa é único e inovador uma vez que tem uma equipa multidisciplinar constituída por técnicos de diferentes áreas: Reabilitação Psicomotora, Terapia da Fala, Fisioterapia e Educação especial e Reabilitação.  Começámos com 2 alunos e neste momento temos cerca de 15 alunos. Os técnicos trabalham com cada criança num regime individual, quer num contexto inclusivo de sala de aula, quer num contexto de terapia de acordo com as caraterísticas da criança e a sua evolução.

Comportamento adaptativo: Programa para jovens adolescentes com necessidades especiais que tem como objetivo o ensino de atividades da vida diária como vestir, tomar banho, preparar refeições simples, escolher a roupa, ir fazer compras à rua, atravessar a rua, andar em transportes de forma autónoma, entre outros.

 

 

A AAMA recebeu o prémio BPI Capacitar em duas edições. Que projetos foram reconhecidos neste âmbito?

Na edição de 2015 a AAMA ganhou a menção honrosa do BPI Capacitar com o projeto da colónia de férias “Camp Abilities Portugal”. O Camp Abilities é uma adaptação de um modelo americano de colónias de férias para jovens com deficiência visual com apoio individual.
Esta colónia de férias teve como motor de inovação o facto de os monitores serem também crianças e jovens, estes sem qualquer deficiência.

Este é um programa inovador, único no país. A missão desta colónia é a INCLUSÃO, através da atividade desportiva, de crianças com deficiência visual e crianças ditas normais. Assim são trabalhados dois grandes objetivos: Por um lado, dar oportunidade aos participantes com deficiência visual de poderem, num ambiente seguro, aprenderam atividades da vida diária que nunca tinham feito e praticaram desportos que pensavam que era impossível. Por outro lado, dar oportunidade aos jovens sem deficiência de conviver e ajudar pessoas com deficiência visual, para que fiquem mais sensibilizados para as questões da deficiência e de ajuda ao próximo e para a integração de pessoas com deficiência na sociedade. Estes jovens ficaram sobretudo com uma ideia muito mais positiva das enormíssimas capacidades das pessoas com deficiência.

Na edição de 2017 a AAMA ganhou a menção honrosa do BPI Capacitar com o projeto “Sapateado Inclusivo para crianças cegas”.

 

Em que consiste esse projeto?

Pretende criar um programa de sapateado americano com o método de peer tutoring para crianças e jovens cegos em Lisboa. Pretende-se que esta aprendizagem seja realizada em contexto inclusivo, desenvolvendo capacidades motoras, cognitivas e sociais.

É pioneiro em Portugal e na Europa, seguindo modelos dos Estados Unidos e Brasil para o ensino da dança, estruturação espacial e integração rítmica fundamental no desenvolvimento das crianças cegas. Sendo a capacitação e estimulação precoce fundamentais na deficiência, a integração do som, do espaço e do tempo são fundamentais para a mobilidade de quem não vê.

Depois do enorme sucesso da colónia de férias inclusiva com crianças com e sem deficiência visual, resolvemos replicar o modelo de pares tutores com crianças mais novas e com deficiência auditiva. Desta forma foi feito um protocolo com o Centro de Educação e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira, por ser uma escola inclusiva com crianças surdas e ouvintes. Começamos a dar aulas de sapateado a 26 crianças, distribuídas em dois grupos. No ano letivo de 2017/2018 foi implementado o sistema de pares tutores, ou seja, cada criança surda é acompanhada por um par da mesma idade e aprendem a técnica do sapateado juntos.

O LIDL financiou este projeto durante 2 anos e, para podermos dar-lhe continuidade, concorremos ao prémio BPI Capacitar em 2017. Com o valor do prémio conseguimos não só dar continuidade a este projeto como também começar um novo projeto paralelo com crianças cegas, dando continuidade ao projeto inicial desenvolvido na colónia de férias em 2015 (a colónia de férias em que houve sapateado foi em 2016, não sei se é a essa que querem referir).

Atualmente, temos dois grupos de crianças em duas escolas diferentes. No Centro de Educação e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira trabalhamos com crianças surdas, com pares tutores da mesma idade. São realizadas algumas adaptações pedagógicas tais como explicação dos exercícios através de demonstração visual, gestos, língua gestual portuguesa, contacto com o par e do contacto com superfícies vibratórias.

No que diz respeito ao sapateado adaptado para o grupo de alunos cegos, prevalece a audição e o tacto. Através da memorização e exploração de ritmos e da intensidade e timbre do som é possível compreender o passo a realizar. O ensino táctil permite ao aluno sentir o movimento no corpo do professor e dos colegas, compreendo as articulações que é necessário mover, a posição dos segmentos e a colocação do peso do corpo, e a correção táctil, feita pelo professor no corpo do aluno.

 

 

Que tipo de sinergias achariam interessante desenvolver com outros parceiros da Rede DLBC Lisboa?

Pensamos que seria interessante desenvolver reuniões com associações em que cada uma apresentasse resumidamente o trabalho que realiza para que fosse mais fácil ter conhecimento dos projetos e assim poder eventualmente estabelecer parcerias e realizar projetos mais ricos e com maior impacto social.

 

Que planos tem a AAMA para 2019?

A AAMA tem como projeto conseguir arranjar um local próprio de forma a que possa diminuir o custo que tem em alugueres de espaços. Assim poderia dar apoio a um número maior de crianças com deficiência e as suas famílias.

Tem [ainda] como plano criar um projeto de integração de jovens com deficiência, nomeadamente autismo e deficiência mental no mercado de trabalho [e] uma equipa de competição de natação adaptada para poder participar em provas e campeonatos da modalidade.

Gostaríamos ainda de poder replicar o modelo da colónia de férias inclusiva “Camp Abilities” com crianças com Trissomia 21 e os seus pares da mesma idade. Este modelo tem demonstrado ser extremamente eficiente na vivência e na aprendizagem de valores para todos os participantes e tem um impacto social muito forte nos jovens que ainda estão a formar-se enquanto pessoas.

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