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[Reportagem] “Comunicar (n)a Rede” | 1º Ciclo de visitas aos associados (I)

O que têm a Dress For Success, a Cafinvenções, a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres e a Kriolart em comum? São associações com gente lá dentro – cidadãs e cidadãos dinâmicos e repletos de ideias – a lutar e a agir no terreno por uma sociedade mais justa. Pertencem à Rede DLBC Lisboa e querem vê-la mais coesa, colaborativa, unida e ativa. Vamos conhecer melhor a nossa rede por dentro?

Arrancou na passada terça-feira o primeiro Ciclo de Visitas “Comunicar (n)A Rede In Loco“ na sede da Dress For Success, no Campo Mártires da Pátria. Ao longo de um mês, a equipa técnica da Rede DLBC Lisboa está a galgar os territórios nos quais os nossos associados põem diariamente a mão na massa e a ouvir as suas preocupações, necessidades e expetativas.

A comunicação da Rede DLBC Lisboa é o principal pretexto destas conversas, mas acabamos a falar de tudo e mais alguma coisa – das próximas atividades e projetos das associações, de ferramentas úteis para dinamizar a rede, do sentido que continua a fazer trabalhar no terceiro setor, apesar das dificuldades.

Olhos nos olhos, ouvidos à escuta, para nos conhecermos melhor, reduzir distâncias, cocriarmos e crescermos juntos e impactarmos melhor as comunidades abrangidas pela Estratégia de Desenvolvimento Local.

 

Kriolart

 

É início de tarde de sexta-feira. Estamos em Alfama, na Rua do Vigário, sob um sol tórrido.
À porta da loja e sede da Kriolart somos recebidos de coração aberto por Carlos Mourão, o presidente de uma associação com cerca de três anos vividos a muito custo… mas já lá vamos.

Mal entramos, não é difícil captar de imediato a essência da Kriolart – Associação Para a Promoção da Arte e da Cultura. Compõem o cenário peças de artesanato em materiais reciclados [cortiça e bambu], instrumentos musicais, t-shirts tingidas recorrendo à técnica tie-dye, quadros com frases de Gandhi, Luther King e Pessoa e… computadores. Uma cliente e vizinha, que já esteve para entrar ali várias vezes, ganha coragem e transpõe finalmente a soleira da porta e Carlos pergunta-lhe, em crioulo, de onde é. Ela responde “Tarrafal”. Naquele momento, a distância de Cabo Verde encurta-se. Tal como se esbate quando falamos dos graus de parentesco da morna, do fado e do landum.

Muitas ideias são partilhadas pelo Carlos ao longo da conversa, mas é esta frase que repete várias vezes que sintetiza o que espera da Rede DLBC Lisboa, em particular, e da humanidade, em geral: “Quando há boa vontade, tudo funciona” – uma boa vontade que reconhece, por exemplo, no pessoal da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes. Com este grupo, já deu a conhecer a sua poesia, lançou livros, pôde expor e vender algumas das suas peças de artesanato. Também à boleia desta boa vontade já levou com estes amigos a palco “Só mais uma Dose”, uma peça de teatro sobre o alcoolismo que culmina num workshop com o psiquiatra Luís Patrício.

Tal como Luther King, Mourão também tem um pé no sonho e outro na ação. Gostava que a Kriolart pudesse desenvolver melhor esta vertente cultural e para isso gostava de contar com uma Rede DLBC Lisboa mais “pragmática”, que ajudasse a “desbloquear”, “a fazer pontes ou a apoiar a sua associação em candidaturas a programas de financiamento.

O presidente da Kriolart sugere ainda trocas de serviços ou valências entre associados. Por exemplo, sendo entendido em hardware, podia consertar computadores ou dar formação nesta área. Até podia fazer locução em crioulo, como já fez noutros contextos. Em troca, ou por um valor simbólico, gostaria que o auxiliassem na construção de um site e um logótipo novos, ou lhe cedessem um espaço para expor as suas peças, apresentar a sua poesia e música e “criar dinâmicas com outros artesãos locais”. “Isto enquadra-se na economia social”, uma alternativa que gostava de ver brotar com mais energia à sua volta, inclusive na Rede.

“Muitas vezes, as pessoas que estão no terreno deviam ser ajudadas em concreto, porque são elas que acreditam realmente no desenvolvimento sustentado”, remata Carlos Mourão.

 

Cafinvenções

 

Pouca terra, pouca terra, u-uuu!
O comboio está a passar bem pertinho do espaço “polivalente” da Cafinvenções, que já é curto para tantos anos de património cultural e familiar, bem como para as aspirações das “manas” Baptista.
E não nos lembrámos deste som agora por acaso: “A linha de comboio está cheia de lixo”, desabafa Carla Baptista, uma das manas que sinalizou este problema de higiene urbana numa reunião da Comissão Social da Freguesia de Benfica, da qual faz parte a sua associação, bem como a Junta de Freguesia e a GEBALIS. Filipa Baptista, a outra mana, concretiza: “São brinquedos de plástico que as crianças já não usam, carrinhos, embalagens, etc.”.

É precisamente à volta desse lixo que vão ser realizadas as próximas ações de sensibilização nos bairros do Bom Pastor e Boa Vista, já a partir de setembro, pelas mãos da Cafinvenções no âmbito do eixo da Cidadania Ativa da Comissão: “Acharam curiosa a nossa ideia, porque queríamos intervir”, lembra Carla. Nesta atividade vai-se falar de ecopontos e limpeza de monos, por exemplo. Mais e melhor educação e cultura. É por aí o caminho, acredita.

Curiosamente a palavra “lixo” vem à baila várias vezes durante a visita guiada ao espaço “tetris” da Cafinvenções – mas falamos de “lixo” que foi reciclado para conceber alguns dos adereços das animações da dupla. Muitas das peças de marionetas são recicladas, até porque há temas [como o racismo] que continuam tão pertinentes hoje como quando o seu pai, o Mestre Filipe, andava pelo país, em empresas e escolas, a fazer animação sociocultural, quando esta ainda era uma criança em Portugal.

Podíamos dizer que este “tetris” muito bem arrumadinho e bem aproveitado é, para além de um palco, uma oficina, um armazém e um espaço para workshops, mas também um museu recheado de memórias – de fotografias, fatiotas, marionetas, material promocional de outros tempos, etc. “A gente cresceu nisto. Ia com ele [o pai] para aqui e para ali. A minha área era arte e design. Ele precisava de ajuda para pintar e, então, pronto, fui entrando. Depois porque estava lá, ia representar. Depois veio a Filipa, que entrou para o escritório” quando o Mestre Filipe se profissionalizou e a companhia começou a crescer.

Apesar da paixão e do sorriso com que desvelam uma intensa história familiar que quase se confunde com a profissional, e com que vão levantando o véu sobre os planos para o futuro, não escondem as preocupações prementes do dia a dia: a precariedade laboral e a falta de uma sala extra para acolher atividades destinadas a um público mais abrangente.

Esperam e querem ajudar a mobilizar uma Rede DLBC Lisboa mais aberta e unida. A Rede “tem que servir para nos conhecermos realmente e vermos onde podemos colaborar uns com os outros”. Como? Ideias e invenções não faltam: através de uma feira que pudesse ajudar a financiar as associações, de um grupo de Facebook onde cada associado pudesse partilhar as suas necessidades e trocar recursos ou de um mapa que georreferenciasse todas as associações da Rede. A Cafinvenções, aliás, já mapeou noutro contexto algumas associações da sociedade civil a intervir num terreno que conhecem como a palma da sua mão: Benfica. E por falar em Benfica, as duas manas lançam um repto aos restantes 165 associados: “Convidamos todos os que quiserem vir aqui”, porque “as pessoas só contam umas com as outras quando se conhecem, quando convivem e criam afinidades”.

 

Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres

 

Dentro do Parque Infantil de Monsanto, damos de caras com um edifício moderno que tem o pulmão verde da cidade de Lisboa como decoração natural, uma imagem devolvida pelos vidros-espelhos que lhe servem de parede. É o Centro Maria Alzira Lemos – Casa das Associações, onde nos encontramos com Alexandra Silva, representante da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres [PPDM].

Fundada em 2004, a Plataforma não é uma associação. É também uma rede – neste caso, nacional – composta por vinte e seis organizações apostadas na promoção dos direitos humanos e, por isso, da igualdade entre mulheres de homens. “Nos últimos dois anos quase que duplicámos o número de organizações-membro, o que resulta do nosso trabalho e do eco desse trabalho”, conta Alexandra.

E que trabalho é esse? “Esperamos que tenha sempre influência na construção de políticas: contribuímos todos os dias a nível da paridade no poder político e económico”. Além do fortalecimento das associações e da monitorização das políticas públicas na área da Igualdade, a PPDM tem provas dadas na produção de conhecimento.

A Plataforma não atua diretamente junto do público final, procurando, antes, “estabelecer relações de proximidade entre as organizações” que trabalham no terreno junto, por exemplo, de vítimas de violência de género. Estas organizações por vezes vêm a Monsanto ao gabinete técnico, onde lhes é facultada informação de toda a ordem, inclusive sobre financiamentos. “Também damos apoio à elaboração de candidaturas.”

Um dos papéis centrais da PPDM é capacitar as organizações associadas com formação mais ou menos formal ou através de conferências, workshops, seminários e sessões informativas. Neste verão, as formações têm-se focado na área da Comunicação. Têm sido lançadas pistas sobre como interagir com os media de forma escrita ou oral ou sobre como deve ser elaborado um Plano de Comunicação no terceiro setor. “Sabemos do poder da comunicação na divulgação do trabalho que fazemos”, acrescenta. Neste campo, Alexandra lembra o poder do “storytelling” [histórias na primeira pessoa] e do “call to action“. Aliás, não é por acaso que a Plataforma disponibiliza, no seu site, um toolkit do Ativismo Feminista”.

E porque é que uma rede adere a outra rede, como a Rede DLBC Lisboa? “Estamos em várias. Uma rede acrescenta sempre valor na troca de informação, na partilha de experiências e do conhecimento que nos dá do terreno.”

Dos outros associados da Rede DLBC Lisboa espera receber “o que gostamos de partilhar”: cada vez mais informação sobre que é feito em termos de monitorização de políticas públicas, o seu calendário de atividades, e espaços para atividades públicas.

E porque a Plataforma procura acrescentar uma perspetiva internacional sobre o trabalho que desenvolve, já em setembro vai organizar em Lisboa um seminário sobre Prostituição com pessoas que pensam e trabalham este tema noutras latitudes a nível de políticas públicas.

 

Dress For Success

 

A uns passos do Jardim do Torel, batemos à porta da Dress For Success [DFS]. Enquanto esperamos, vamos observando as indumentárias e os adereços que servem de cartão de visita à “sucursal” lisboeta da organização fundada pela norte-americana Nancy Lublin.

No fim da visita, a nossa cicerone, Filipa Gonçalves, confessa-nos que gostava que saíssemos dali com esta imagem: a roupa e os sapatos que ajudam mulheres economicamente desfavorecidas a conquistarem “autoestima” e um emprego, sim, mas também “o espírito” e “a realidade” da associação.

Estamos numa boutique recheada de peças selecionadas criteriosamente a partir de um molho de roupa doada. “A roupa é mais um acessório, porque o que tentamos vestir é de dentro para fora. Se aceitarmos como estamos, depois é muito mais fácil conseguirmos fazer a transformação. A mudança é aqui que se cria.”

Filipa trabalhou na área dos Recursos Humanos no meio empresarial durante vários anos, entrou em 2013 como voluntária na Dress For Success [DFS] e é desde Abril vice-presidente desta instituição sem fins lucrativos.

O início de atividade da DFS em Lisboa remonta a 2011 e, sete anos depois, a associação presta consultoria de imagem e atendimento personalizado nas suas instalações em dois espaços distintos: na Boutique e no Centro de Carreira. Neste último espaço é feita a análise dos perfis e Curricula Vitae e desenvolvem-se competências de marketing pessoal.

As mulheres que acorrem à Dress chegam ali por indicação de parceiros sociais, do IEFP, das redes sociais ou na sequência de uma ação de sensibilização feita no terreno – vêm de Lisboa, mas também de Setúbal, Cascais ou Vila Franca de Xira. Outras atividades da DFS passam pela organização do Mercado Salto Alto ou ainda por Programas em áreas como a Inclusão social, a Integração e a Retenção do trabalho.

Agora que está num cargo de maior responsabilidade dentro da associação, Filipa tem olhado para o terceiro setor com mais atenção. “Em alguns eventos na área social em que estou presente, a ideia que tenho é que somos muitos, mas não nos conhecemos. Está tudo disperso. Devia haver um link qualquer através do qual pudéssemos saber o que cada um faz. Acabamos por viver o nosso próprio mundo e às vezes teríamos que ter tempo para saber o que os outros fazem. “

Espera que, daqui a um ano, a Rede DLBC Lisboa seja vista, além de “um recurso complementar à comunicação” que já fazem, como “um espaço de partilha” que contribua para a “criação de sinergias”. A vice-presidente da DFS gostaria, nesse sentido, de ver organizados um encontro anual para “reacender o poder da entreajuda” entre associações e alguns workshops regulares à volta de uma mesa “com café e bolinhos”.
Apesar da Dress já contar com várias parcerias no terreno, Filipa considera que os associados podem ajudar a DFS ao “canalizar mulheres até nós”.

 

 

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[Reportagem] “Comunicar (n)a Rede” | 1º Ciclo de visitas aos associados (II)

Na segunda e terceira semanas do “Ciclo de Visitas Comunicar (n)A Rede” fomos visitar mais quatro associados: CLIP, Questão da Igualdade, Clube Intercultural Europeu e FormDefi. Confirmámos no terreno o que já suspeitávamos: não faltam ideias e conhecimentos às pessoas que formam a rede e trabalham no terreno, nem projetos aliciantes na calha. Vamos seguir viagem pela Rede DLBC Lisboa adentro?

 

CLIP

A partir da estação de metro do Lumiar chegamos a pé à sede do CLIP, na Alta de Lisboa, em menos de 10 minutos. Nicole Figueiredo, a trabalhar aqui há três anos, recebe-nos num hall luminoso, com vista para o bairro, com um sorriso rasgado.

Poucos minutos depois já estamos no andar de cima a visitar uma sala polivalente que acolhe uma pequena biblioteca. Neste espaço amplo têm lugar formações ou mesmo as famosas “Conversas a Copo”, “um momento descontraído e engraçado onde cada associado pode partilhar aquilo que quiser”. Quatro ou cinco vezes por ano, ao final da tarde, durante duas horinhas, a sala adapta-se à ocasião: dispõem-se uns puffs no chão, há uma garrafa de vinho, sumos e aperitivos sobre a mesa. E que assuntos têm sido partilhados, discutidos e digeridos nestas Conversas? Participação e Cidadania, Economia Social e Solidária, Alimentação saudável, Governança Partilhada.

Na sala ao lado, visitamos uma pequena despensa apetrechada de material que pode ser requisitado pelos “Clippers” [os associados do CLIP]: panelas, tigelas, máquina de encadernar e plastificar, um kit de coffee break… mas já lá vamos.

Fundado em 2012, o CLIP é um “agregador” de 107 associados, coletivos e individuais, “de todo o lado” – de Lisboa, mas também de Cascais, da Margem Sul ou até mesmo do Porto, incluindo clubes desportivos, associações de moradores, de pais e da defesa do ambiente que trabalham no terreno com crianças, jovens e idosos, entre nacionais, imigrantes e refugiados.

Com um modelo de governança partilhada, esta rede nasce na sequência da saída do programa K’Cidade da Alta de Lisboa, onde esteve 12 anos. As associações que integraram este programa “habituaram-se a trabalhar em conjunto e não queriam perder esta lógica”.

Capacitar os associados é a principal missão do CLIP. E aqui capacitar passa por “formações à medida” nas áreas da gestão das associações e das competências pessoais e sociais. Recorrendo à “prata da casa”, esta rede oferece ainda a sócios e não sócios cinco Consultórios (Fiscal, Jurídico, de Apoio ao Associativismo, a candidaturas a Projetos ou à Renovação de Espaços). O atendimento é personalizado e funciona na lógica de “uma ida ao médico”: “Tenho uma dúvida, estou lá uma hora e esclareço as questões” com um especialista.

Num momento em que o CLIP está apostado na sua expansão, este serviço vai ser alargado já a partir de setembro a toda a cidade numa parceria já acordada com a Câmara Municipal de Lisboa. Aqui o atendimento será feito junto de pequenos grupos. Por exemplo, “se há cinco pessoas a dizerem que querem um consultório de contratação de Recursos Humanos na zona Oriental, então vamos fazer um consultório lá sobre isto”.

Voltemos ao kit de coffee break que vimos na despensa, às colunas de som que nos fazem companhia no hall ou ao projetor de que falamos a seguir: “Para valorizar as trocas informais que acontecem e rentabilizar recursos da rede” foi formalizada uma plataforma de Partilha de Recursos. Regularmente é feito um levantamento de necessidades dos associados e comprado material, colocado posteriormente à disposição dos associados. Neste sistema de troca idealmente recíproca, cada recurso ganha um valor e é aqui que entra em cena uma moeda virtual chamada “Clip”.

Sendo o CLIP uma rede, o que espera de outra rede a que pertence? “Cooperação”. É  importante perceber “o que podemos fazer em conjunto para benefício de todos”. Seria ainda pertinente, através da comunicação, “criar uma identidade comum, uma linguagem que toda a gente identifique para aumentar o envolvimento”.

Ah, já agora, lembra Nicole, os associados da Rede DLBC Lisboa estão convidados a participar no próximo “Conversas a Copo”, que em princípio vai acontecer na última quinzena de agosto na Rua Luís Piçarra, na Alta de Lisboa.

 

Questão da Igualdade

“A Questão da Igualdade [QI] é um projeto de trabalho e de vida. Funde-se tudo. Respiramos isto.” A confissão é de Ana Paixão que, com Pedro Gonçalves, dão a cara pela QI. Com uma colega de curso, Ana e Pedro, agora um casal, fundaram há dez anos a associação, de âmbito nacional, com um pé na consultoria e outro na formação. O seu “primeiro grande trabalho” foi um “estudo nacional para a Cáritas sobre igualdade de género”. Depois chegaram os projetos em nome próprio um pouco por todo o país…

A escassez de financiamento fez com que a QI tivesse sentido a necessidade de se reinventar, passando a jogar no campo da intervenção local. O conhecimento da Rede Social, do programa BIP/ZIP e o envolvimento na Comissão de Freguesia de Marvila, cruzado com as experiências anteriores, contribuíram para que esta adaptação ao meio fosse mais célere.

Setembro será um mês de intensa atividade para a Questão, que está na Casa dos Direitos Sociais, na Bela Vista, mas com provas dadas em várias áreas de Lisboa. É o mês do arranque de dois projetos no âmbito do BIP/ZIP nos quais a QI é uma das entidades promotoras: o “Vozes Miúdas, Ideias Graúdas” e a “Academia Sénior”. Ambos os projetos não nasceram do zero, mas a partir de projetos e parcerias anteriores.

O primeiro projeto aprovado é uma extensão do Fórum da Cidadania, “um processo que precisava de ser amadurecido”, lembra Ana. Neste âmbito “foram realizados fóruns com crianças nos vários territórios com as suas visões da cidade. As respostas foram boas, mas insuficientes”. Vários membros da comissão organizadora do fórum “criaram uma relação de trabalho tão forte, de camaradagem” que quiseram levar mais longe. Integram este projeto a Fundação Aga Khan, a Associação Humanidades, a CERCI Lisboa, a Companheiro, a Nuclisol Piaget [todos associados da Rede DLBC Lisboa], mas a ideia é “abrirem a parceria a outras organizações”. O desafio é ambicioso: impactar as comunidades de quatro áreas BIP/ZIP [zona Oriental, Benfica, Penha de França e Bairro São João de Brito].

O “Vozes Miúdas, Ideias Graúdas” vai ser apresentado em várias escolas do 1º ciclo no arranque do ano letivo. “A participação [das crianças] tem que ser voluntária”. Num primeiro momento vão ser estas crianças a apresentarem as suas ideias e necessidades à comunidade. Pelo meio haverá oficinas de capacitação e projetos próprios. O objetivo é, até junho, decorrer a primeira assembleia de crianças da cidade. A ideia é juntá-las todas e apresentar o trabalho que estiveram a fazer” à cidade.

Já a “Academia Sénior” é, nas palavras de Pedro, um trabalho de “continuidade”, fruto de uma “empatia” gerada com a Associação de Moradores das Amendoeiras num projeto anterior. A ocupação das pessoas séniores, para além da ida rotineira ao café, era uma preocupação antiga da Associação.

Aliás, esta candidatura foi preparada com inputs de futuros participantes, que acabaram por manifestar os seus interesses. As disciplinas lecionadas passarão pela Informática, Ginástica, Teatro, Tai-chi, Fotografia e… História das Mulheres e Feminismos. Os promotores deste projeto quiseram introduzir este “toque de inovação”, uma “componente para a sensibilização da igualdade, violência doméstica e/ou contra idosos” coordenada particularmente pela QI e a Quebrar o Silêncio. O enfoque na intergeracionalidade é outro dos objetivos, replicando boas práticas trazidas de um projeto já implementado no Alentejo pela QI: “Pretendemos que os próprios alunos da Academia, com genuíno interesse nestas áreas, vão às escolas do bairro como agentes de sensibilização para a questões de igualdade e violência no namoro”.

Um dos maiores orgulhos da QI é um vasto painel composto por mais de mil lenços com frases de namorados, pintado e cosido a várias mãos, no âmbito da Campanha de prevenção de combate à violência dos namorados. “Está farto de viajar e tem sido solicitado para muitos eventos”.

Na Rede DLBC Lisboa Pedro e Ana estão disponíveis para dar formação a outros associados em matéria de igualdade e conciliação, por exemplo. Da equipa técnica esperam ações de capacitação no terreno para elaboração de candidaturas e captação de financiamentos, entrevistas a financiadores e ao público impactado pelos associados. Outra sugestão é a criação de um dia de “Portas Abertas”. Esperam que daqui a um ano a Rede seja “mais sólida, mais participada” e que todos os associados “sintam que fazem parte de uma rede que dá a cara por elas e que vai lutar pelos seus interesses”.

 

Clube Intercultural Europeu

Teresa Simões entrou em fevereiro no Clube Intercultural Europeu para “criar o departamento de Comunicação”, mas parece vestir a camisola da associação há anos.

Designer gráfica com experiência em produção de eventos e na área do associativismo, Teresa faz de tudo um pouco no Clube: intercala, por exemplo, a nossa conversa no Espaço C3 com a abertura de portas a coworkers, voluntários e operários.

Esta não é a sede oficial do Clube, mas Teresa tem vindo para o espaço de cowork partilhar a mesa com um público muito internacional, fazendo jus à filosofia da associação. Fruto de um programa BIP/ZIP, o C3 surge da necessidade manifestada por um grupo informal de jovens do antigo bairro da Curraleira ter uma sala de convívio, criação, ensaio e gravação. O Clube conseguiu transformar um albergue de consumo de estupefacientes num pólo de cidadania e criatividade: estúdio e espaço de cowork e de formação ao mesmo tempo.

“O objetivo era servir a comunidade e abrir as portas a outras pessoas para se criarem dinâmicas e oportunidades para as pessoas que moram cá”, procurando desconstruir ideias pré-feitas sobre a atividade de um bairro social, espalhando a mensagem de que “há coisas interessantes a acontecer”. Coisas interessantes como o Festival As Costas da Cidade, que o Clube ajudou a organizar e a disseminar nas últimas semanas com a comunidade e outras associações locais.

A ligação a esta comunidade não é nova: “Temos tido projetos que nos têm aproximado. Um deles é o Sementes”, que o Clube gere há cerca de 5 anos. É um centro de apoio ao estudo, com sala de computadores e atividades de ocupação de tempos livres para crianças e jovens. “A par e passo esperamos que o espaço tenha a dinâmica que visionámos para ele”. Já agora, Teresa lembra que ainda há vagas para o espaço de cowork e que há uma sala de formação para alugar.

Além de uma missão local, o Clube é particularmente conhecido pela sua faceta internacional. Desde 2015 é uma entidade de acolhimento, envio e coordenação de Serviço Voluntário Europeu. Para além desta incumbência, recebe estagiários no âmbito do programa Erasmus+ nas áreas de Gestão de Projetos, Ciências Políticas, Tradução, Relações Internacionais, e de outros programas de mobilidade europeia. Não é difícil cruzarmo-nos por aqui com grupos de franceses e espanhóis que estão a fazer o estágio dos seus cursos técnico-profissionais.

Teresa gostava de ver a Rede DLBC Lisboa a estimular a troca de recursos materiais entre associados, mas também de boas práticas. É bom ver associados a reconhecerem a qualidade de outros associados: “O CLIP é um bom exemplo de partilha”.

Além disso, a coordenadora do departamento de Comunicação do Clube espera que a Rede DLBC Lisboa facilite contactos no geral, divulgue notícias dos outros associados, oportunidades de formação e financiamento ou ajude a criar momentos de Jobshadowing – ou seja, a experiência de um associado ir observar o dia a dia de outro associado no terreno [“seres a sombra de outra pessoa”]. E por que não um congresso nacional da Rede daqui a um ano, sugere ainda.

Setembro é um mês forte em termos de atividades para o Clube Intercultural Europeu: vem aí o projeto de BIP/ZIP “CapacitArte”, que procurará ajudar a trabalhar competências pessoais para melhorar a empregabilidade, e há novas mobilidades europeias na calha.

 

FormDefi

Há um certo ar de mudança na sede da FormDefi, na Rua Conde Redondo. Vários caixotes com livros a serem selados com fita adesiva e quadros envoltos em plástico denunciam essa transitoriedade.

A cooperativa que se segue à EPAR [Escola Profissional Almirante Reis, vendida em 2017] não só vai ganhar um novo espaço, como uma nova roupagem, com alguma reciclagem à mistura. “É uma segunda vida, [mas] não temos medos. Estamos habituados a começar de novo”, recorda Joffre Justino, presidente da FormDefi – Desenvolvimento, Ensino, Formação e Inserção, CRL. “Vamos concentrarmo-nos naquilo que a EPAR fazia apenas subsidiariamente: a inserção social e profissional”. “Por opção”, a cooperativa deixou de ser uma entidade formadora reconhecida, embora pretenda continuar a organizar atividades formativas de curta duração, como seminários e workshops, por exemplo em áreas como o Neuromarketing e Atendimento.

A poucas horas de embarcar para Cabo Verde, Joffre, moçambicano de berço e “angolano de coração”, começa por nos fazer uma visita guiada por um espaço adornado com uma série de quadros que espelham bem as suas “ligações africanas”, e as da diretora financeira Natália Fox e do coordenador das Novas Tecnologias Heitor Fox, também moçambicanos.

Nesta nova vida, a promoção da lusofonia vai passar a ser uma prioridade: “Estamos interessados em retomar a ligação à CPLP” [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. É neste sentido que a FormDefi está a preparar para Angola um projeto de formação na área das pescas e outro de apoio aos eleitos do poder local. Também está a ser desenhado um gabinete de apoio a pessoas dos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] que venham a Portugal tratar de questões de saúde por um período de tempo considerável.

Também o jornal online e multimédia “Estrategizando” faz parte desta estratégia “a longo prazo”. O objetivo é que este “grande projeto de eleição” da nova cooperativa, destinado a cidadãos de expressão portuguesa, se torne sustentável financeiramente já no início do próximo ano e “que seja cada vez mais um jornal online da CPLP”, um espaço de “reflexão e ação”. Por isso mesmo a FormDefi quer apostar cada vez mais em debates sobre questões de cidadania dentro do espaço da CPLP. Por exemplo, a 15 de setembro, no Dia Internacional da Democracia, vai organizar uma discussão sobre o estado da arte deste regime político.

Começamos o périplo na biblioteca, onde encontramos os tais caixotes com livros da mais variada ordem – romances, livros de Economia, Turismo e Gestão. “Têm a ver com as disciplinas dadas na escola”. Com cerca de 25 anos de património, a cooperativa e “escola laica, republicana e solidária” EPAR, sita no Bairro da Graça, seguiu-se a uma empresa de consultoria na área dos Recursos Humanos para organizações. “Demos muita formação durante a Expo 98, sobretudo na área da hotelaria e na AutoEuropa”. Público-alvo? Jovens e adultos.

Neste quarto de século de EPAR, Joffre destaca ainda o “Integrar”, um projeto de formação, sensibilização, dinamização cultural e organização de rede de associações que mobilizou mais de mil pessoas e que impactou especialmente lisboetas vindos de outros países lusófonos. “Permitiu que algumas associações percebessem o seu papel na estrutura social portuguesa. O próprio Alto Comissariado para as Migrações bebeu imenso da informação [produzida] nessa altura.”

Nas próximas instalações, na Avenida Santa Joana Princesa, em Alvalade, a FormDefi quer “desenvolver atividades que tenham a ver com inserção social, profissional e cultural das populações que nos rodeiam” já a partir de janeiro de 2019.

Para já, vem aí um período de conversas e (re)conhecimento dos principais agentes sociais a operar no território para onde se vão mudar de malas e bagagens: “contamos com a Rede DLBC Lisboa para identificação e facilitação de contactos de associações à volta”. Depois virá um período de promoção da própria cooperativa e do desenho das atividades com a comunidade.

Paralelamente, daqui um ano Joffre Justino gostava que a Rede DLBC Lisboa fosse “capaz de criar um sistema organizativo com os associados” que facilitasse apoios pontuais para atividades concretas, por exemplo, na cedência de um espaço para colóquios ou workshops ou na indicação de atores no terreno que possam vir a ser potenciais parceiros.

Da parte da FormDefi os outros associados podem contar com “a disponibilização de equipamentos pontualmente”, com o know how de “trinta anos de atividade associativa” e na área da formação (“até para dirigentes associativos”), ou com o seu contributo para a organização de um evento online para aumentar o sentido de pertença dentro da rede, “via Skype”.

 

[Reportagem] “Comunicar (n)a Rede” | 1º Ciclo de visitas aos associados (III)

Terminamos hoje a cobertura do primeiro ciclo de visitas aos associados da Rede DLBC Lisboa. Ao longo das últimas quatro semanas estivemos junto de doze associados no terreno. Nesta última ronda fizemos uma visita guiada pela Lisboa histórica com a MilAcessos e outra pelas Olaias com a Aga Khan. Fomos ainda ao Bairro Alto conversar com o vice-presidente da FAMALIS e ao C3, no Beato, saber que pontes é que Btuin anda a construir.

 

MilAcessos

 

Lisboa, 23 graus à sombra. O Largo Adelino Amaro da Costa, mais conhecido por Largo das Caldas, é o ponto de encontro deste nosso “passeio” entre a Rua da Madalena e a Rua da Mouraria.

Com um sorriso de orelha a orelha, Paula acaba de descer de uma carrinha adaptada da “Tourism for All”, parceira da MilAcessos nestas visitas guiadas, sentada na sua cadeira de rodas manual. Elemento da Mil Acessos desde a fundação, Paula é também turista dentro da cidade e vem acompanhada de dois explicandos seus [Paula é explicadora]. Juntam-se ao grupo duas senhoras idosas. Uma delas, Maria da Conceição, apoiada na sua bengala, partilha que “corria isto tudo à hora do almoço quando trabalhava no Ministério das Finanças”.

O cicerone, Pedro Brandão, fundador desta cooperativa há cerca de seis anos, explica-nos como nasceu a MilAcessos: Paula e Pedro trabalharam juntos numa agência de viagens de turismo adaptado e na sequência de um despedimento pensaram criar “uma entidade economicamente sustentável, com uma parte social e outra comercial”. O modelo de cooperativa estava escolhido. No início, Paula torceu o nariz ao desafio do colega: “Estás maluco?”. Entretanto, Pedro conseguiu convencê-la – em regime de voluntariado até podia ser.

Aqui estamos nós prontos para ver um dos sócios-fundadores da Rede DLBC Lisboa em ação, a desbravar caminhos numa Lisboa ainda pouco acessível, mas “muito mais do que antes”. “[Os potenciais participantes] entram em contacto connosco através de associações. Vemos um grupo. Consoante as necessidades, vemos se [os requerentes] conseguem ou não fazer [o trajeto]. Grupos grandes não funcionam.”

Para que estes “passeios” sejam gratuitos, a cooperativa leva a cabo visitas regulares com um público internacional, saído dos cruzeiros que param ao largo de Lisboa. A lógica é ter “uma cara de serviços para angariar dinheiro junto de quem pode para fazer depois [estas visitas guiadas] com os que não podem”. ‘Habitué’ em cruzeiros, o físico Stephen Hawkins fez três vezes estas rotas de turismo acessível. Paula recorda um homem “muito acessível”, que pedia que lhe fizessem as perguntas que quisessem, às quais ele respondia através do seu computador. “Não imaginas as pessoas diferentes que temos apanhado”, comenta Pedro.

Além de Hawkins, já serviu de guia a veteranos de guerra e a um Ministro de Estado do Canadá. “Teve um acidente que só se pode ter no Canadá. Vais de carro e embates contra um alce. O animal entrou pelo carro adentro e ele ficou em cadeira de rodas”. Nestas visitas “mais importante do que saber a história, é a capacidade de comunicar, é fazer a ligação com a outra pessoa”. E Pedro sabe muito de História, mas também sabe envolver. É formado nesta área e tem na ponta da língua a história de Lisboa, “feita de histórias”, mas também foi aprendendo muito sobre turismo, mobilidade condicionada e relações humanas ao longo da sua experiência profissional na MilAcessos, na agência de viagens e na Inspeção Geral das Atividades Culturais. “[Nesta entidade um dos seus trabalhos era] tornar as salas de espetáculo acessíveis. Foi o meu primeiro contacto com esta realidade”.

E quais os pontos de paragem ou menção obrigatória neste “passeio”? O largo de São Cristóvão, o Palácio Marquês Ponte de Lima, o Colégio de Santo Antão o Velho, a Ermida de São Sebastião, a Igreja de São Lourenço, um ou outro edifício que remonta à época medieval, a casa da Severa e o estabelecimento comercial Dona Laurinda que ainda “presta imenso apoio à comunidade” na era do “fenómeno da gentrificação”. “Quando fizemos este projeto demos formação aos comerciantes [sobre] como atender… [Imagine que] “eu estou na minha loja, aparece uma pessoa cega, o que é que eu faço?”. Pedro lembra ainda que “a maioria das lojas não é adaptada”, mas que a aproximação pela conversa pode minimizar a inacessibilidade. Também um guia comunitário local foi formado pela MilAcessos para fazer visitas adaptadas a  pessoas com mobilidade condicionada.

Mas voltemos ao “piso péssimo” dos antigos arruamentos da capital portuguesa. Paula diz que “Lisboa não é fácil” para uma pessoa como ela. “Eu ando em Nova Iorque e Londres sozinha”. Aqui precisa de uma pequena grande ajuda dos amigos “a empurrar”. Pedro lembra a dada altura: “Lisboa, com o seu castelo, foi feita para ser inacessível. Tem uma inclinação natural. As ruas eram feitas sem passeios.”

Mais à frente, Paula, que nos conta sem tabus que caiu de um oitavo andar quando estava a apanhar roupa, vai fazer um “comentário mesmo à séria”, quando alguém se queixa, a brincar, das suas queixas: “Temos um piso péssimo. Quando se está a empurrar alguém da cadeira de rodas o trepidar da cadeira [dificulta o movimento]. Pessoas com lesões medulares como eu não têm o equilíbrio que vocês têm e têm a tendência para caírem para a frente quando é uma descida. E estes buracos entre as pedras? A rodinha pode travar e eu sou projetada para a frente.” Outras barreiras? Uma carrinha mal-estacionada que obriga Paula a “passar de lado”, material da construção civil ou dejetos de cão no meio do passeio que levam uma transeunte a indignar-se em alta voz: “Em que país é que nós estamos? Não há respeito! É fazer pouco das pessoas”. Pedro diz que, infelizmente, este tipo de situações – as barreiras e a revolta popular – é “o pão nosso de cada dia”.

Esta visita mostra uma faceta da MilAcessos “mais ligada à pessoa, frente a frente”, explica Pedro. Ao promover “o acesso ao lazer” está-se a trabalhar a vertente pessoal, “encaminhando a pessoa, mostrando-lhe as coisas, fazendo um passeio com elas”. Num nível acima, “criamos as ferramentas para que a pessoa por si própria possa ter acesso ao lazer”. Desta feita, e fruto de um projeto BIP/ZIP, a MilAcessos preparou o guia turístico “Lisboa Histórica para todos“. Neste âmbito, “criámos rotas, dizemos qual a inclinação dos terrenos, etc.”. Foi uma dessas rotas que fizemos, que terminou na Mouraria, com a muralha fernandina no horizonte.

Mais tarde vamos falar da Rede DLBC Lisboa, uma “rede única neste país”. Pedro espera que a Rede continue a “promover encontros”, mais ou menos orgânicos entre associados “pequenos e grandes” e que continue a prestar apoio técnico a candidaturas. É num café, já protegidos do sol, que confessa: “Se calhar as entidades reúnem-se melhor em pequenos cafés… num ambiente mais informal para discutir temas”, como aconteceu com uma parceria com outro associado da Rede DLBC Lisboa, a EPAR [agora FormDefi]. Foi através da rede que a MilAcessos chegou à fala com esta associação, que passou a dar formação em Atendimento, incorporando a componente da Acessibilidade. “A Rede é um facilitador de contactos, de experiências. Ninguém vive sozinho”, remata Pedro, pouco tempo antes de passar à reunião seguinte, no mesmo café, com um colega homónimo da cooperativa.

Btuin

 

Mourad e Pedro, dois terços da cooperativa Btuin, conheceram-se no jantar de tomada de posse da direção da Rede DLBC Lisboa em 2015. Pedro esteve presente nesse momento fundacional e quis “participar” da dinâmica da rede, com a qual mantém desde o início uma relação “visceral” e “próxima”. Nessa altura ainda não existia a Btuin sequer.

Vindo do ramo do Turismo, Pedro Gonçalves enveredou pelo terceiro setor em Sintra, na Casa das Cenas, associação que “trouxe” para Lisboa, mais precisamente para as zonas do Beato e da Penha de França, onde o projeto USER do programa europeu URBACT estava a ser implementado. “Apendi imenso” com as associações locais, associações de moradores, alguns parceiros estratégicos, a Câmara Municipal de Lisboa e duas juntas de freguesia com quem trabalhou – “um grupo que se manteve coeso”.

Este projeto acabou por resultar num planeamento estratégico para este território, o “GABIP 2.0”, que a Btuin está empenhada em ativar com as Juntas de Freguesia do Beato e Penha de França, a Câmara de Lisboa, o K Cidade, o Clube Intercultural Europeu e duas associações de moradores. A ideia desta versão 2.0 do Gabinete de Apoio aos Bairros de Intervenção Prioritária [GABIP] é que este não se cinja apenas aos territórios BIP/ZIP, mas contagie e abranja toda a área envolvente.

E qual é o papel da cooperativa na criação desta segunda geração de gabinetes?  A avaliação técnica dos processos, ou seja, “estar presente”, “moderar” e “refrear a vontade absoluta e crítica dos moradores e o ponto de vista meramente político de técnicos das juntas de freguesia”. Em suma, estar between, a construir pontes.

Há cerca de um mês instalado no C3, um espaço de cowork gerido pelo Clube Intercultural Europeu, Pedro diz que lhe faz sentido estar aqui junto da comunidade. “Dá para sentir pulso ao bairro e estabelecer uma relação mais próxima com o Clube”, alimentando “conversações sobre eventuais parcerias”. Um dos seus objetivos, ao trabalhar neste território BIP/ZIP, é fazer algo que quebre com o paradigma de que “aqui não se faz nada”.

Parceria é, aliás, uma palavra cara a Pedro. O projeto Lett Labs [Lisbon Tourism Tech Experiential Labs] é precisamente um consórcio de seis agentes, incluindo a Btuin, focado na Colina do Castelo, uma zona especialmente impactada pelo turismo de massas e pela gentrificação. O papel da cooperativa neste projeto foi fazer o levantamento do que é o registo nacional de alojamento local (moradias e apartamentos) e empreendimentos turísticos (hotéis e hospedarias) na área.

Os parceiros MilAcessos, Warehouse, Perfect Orange, Studio Map e ET Concept trabalharam outras vertentes: dados abertos, sensores, acessibilidade, engenharia de sistemas, arquitetura e urbanismo, etc. O levantamento foi só o primeiro passo de um vasto processo. “Isto no fim dá-nos uma visão holística de um território, em que tens visão mais ou menos precisa das carências, dos desequilíbrios, das virtudes do território, ou dos impactos dos movimentos que fazem e do lixo que potencialmente produzem [os utilizadores daquele território]”.

As ideias fervilham na cabeça de Pedro, que gostava que a Btuin, por exemplo, pudesse “acionar e estar envolvida numa espécie de rede de artes e ofícios da cidade que se torne visível e conhecida do público em geral” e que permita os artesãos locais criarem e venderem produtos aos turistas.

À equipa técnica da Rede DLBC Lisboa lança um desafio ambicioso: a gestão de uma “boa plataforma digital” que apresente um pequeno perfil dos associados e as suas áreas de interesse, oportunidades de financiamento direcionadas por área de interesse e um botão vermelho para os associados carregarem quando necessitarem de assistência técnica. Pedro recorda, a propósito, o “bom exemplo” da Geofundos, mas quer que a Rede vá “mais longe”. A sua sugestão é que a equipa ajude a criar “pequenas redes dentro da Rede por oportunidade”, com a “mediação humana” da equipa técnica.

Depois de filtrado um financiamento por áreas de interesse e comunicado aos potenciais interessados, a Rede deve reunir com estes, sugere Pedro. “Depois de falarem sobre aquele fundo, [os associados] já sabem que estão interessados naquela área e daí nascem outras ideias e formas de gerar riqueza, recursos, projetos… Isso é que faz com que as pessoas se aproximem. As pessoas precisam de oportunidades de financiamento, direcionadas para o seu matière. O que interessa aos associados no fim do dia? A sua manutenção e sustentabilidade“.

 

Aga Khan

 

Começamos a nossa conversa no café “Marinho”, no Empreendimento de João Nascimento Costa, no antigo bairro da Curraleira, nas Olaias.

João Queiroz, coordenador de Desenvolvimento Comunitário da Fundação Aga Khan, cumprimenta a Dália, do outro lado do balcão, e Xana, do lado de cá. Mais tarde durante a nossa visita a um território no qual a Aga Khan intervém há quase dez anos – nas freguesias do Beato e da Penha de França – vai falar com o João Paulo, representante de uma associação local de moradores, Maria José, residente do empreendimento, entre outras pessoas que finalmente o reconhecem como um elemento da comunidade. Os assuntos das conversas são os mais variados. Entre eles estão o balanço do festival As Costas da Cidade e uma visita de um coordenador do GABIP ao território. “É como tudo na vida. Tudo começa com um olhar, um cafezinho, uma conversa, um bom dia. Costumamos dizer que o nosso modelo é relacional. Só depois é que se torna técnico.” E o que ambos os lados andaram para aqui chegar…

Quando a Aga Khan chegou ali, em 2009, a intervenção comunitária era parca. Foi preciso aproximar-se, escutar as necessidades, diagnosticar e “ganhar confiança”. “Os BIP/ZIP permitiram estar sempre a criar projetos que nos permitem criar espaços de relação”. E os resultados estão bem à vista: “os campos da bola, o skate park, as hortas, a praça [da Quinta do Lavrado], a pintura… nada disto havia”. Tal como não existiam uma série de árvores e canteiros ou os murais pintados a céu aberto com base numa “recolha de “memórias da Curraleira”. Fruto de um projeto PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, estes murais (Pa-redes) representam episódios do quotidiano deste bairro mítico: um incêndio trágico, o transporte de água em tempos de escassez, atividades de lazer e trabalho como a lavagem da roupa no tanque.

E como se faz a ponte entre essas “memórias vívidas” e o presente? De há seis meses para cá o Marinho que vemos a servir cafés no café homónimo é o mesmo que “de viva voz” e “na primeira pessoa” serve de guia das visitas ao bairro. É residente, faz parte da Associação de Moradores e esteve envolvido na organização do festival As Costas da Cidade, onde atuaram várias estrelas locais [cujo reconhecimento já transpôs os limites do bairro] como o cantor Nininho Vaz Maia, a fadista Filipa Cardoso ou os dançarinos da Marcha do Alto da Pina. Este festival é a sequência natural do projeto “Pa-redes” que caiu nas graças do júri do PARTIS. “Eu senti novamente a Curraleira n’As Costas da Cidade, o seu espírito forte, a solidariedade”. Foi este o melhor feedback que João ouviu acerca de um evento construído comunitariamente.

E qual é o papel da Aga Khan nestes territórios? “[Somos] facilitadores, mediadores e intérpretes” em “processos” de “desenvolvimento comunitário de forma participada”. “O nosso objetivo é envolver desde o início na operacionalização o residente, o grupo informal, a associação, os grupos de interesses”, e este envolvimento tanto diz respeito a residentes como a comerciantes que não vivem aqui. É preciso “criar comunidade” e “relações improváveis”. Muitas vezes “entre os diagnósticos mais formais e as necessidades [da comunidade] não existe match [correspondência]”. As preocupações diagnosticadas passam sobretudo pela “habitabilidade e qualidade de vida”, pelo facto por exemplo de não haver um espaço público onde os miúdos possam brincar em segurança. Agora já há vários na zona, já se veem crianças a usar o espaço público, graças a vários projetos de BIP/ZIP.

As dinâmicas comunitárias que envolvam as escolas do território são também um “processo” contínuo da Aga Khan. A Escola Secundária António Arroio e a Escola Básica Engenheiro Duarte Pacheco são dois aliados, que a fundação faz questão de “namorar” sempre que pode. Vimos peças de arte feitas pelos alunos da António Arroio no festival As Costas da Cidade, mas João quer ver mais, “o espaço público como uma tela”. Por que não “um mercado de arte no bairro em que os alunos podiam vender os seus produtos ao público”? Já na escola básica, a pergunta é “como pôr as crianças a olhar a sua comunidade?”

As assembleias de turma têm sido espaços de cidadania e comunidade para pôr os miúdos a elaborarem “diagnósticos participados”. O lixo e o bullying são dois problemas desta escola? As soluções, sugeridas pelos próprios alunos, passaram por organizar um grupo para a limpeza durante os intervalos ou passar uns vídeos de animação à hora do almoço, o período em que se atinge o pico do bullying. “Aqui o aluno vai perguntar ao professor como ele entende os problemas da escola, [o que vai] valorizar a criança, pondo-a a olhar a escola e o professor para além da relação formal”. O que Queiroz mesmo gosta de ver a acontecer são “as comunidades a liderar o seu próprio desenvolvimento”.

E onde pode a Rede DLBC Lisboa entrar nestes processos? João não responde, mas pergunta: “Como poderemos ponderar caminhos de comunicação a partir de redes proximidade?”  

Para já, João alista os recursos que a Fundação Aga Khan pode disponibilizar a outros associados: formação e capacitação em Animação Territorial e angariação de fundos junto do setor privado, “metodologias para promover a participação em cidadania ativa” e “recursos dos sítios onde estamos”.

 

FAMALIS

 

Estamos em pleno coração do Bairro Alto, a paredes meias com o Mercado dos Ofícios [antigo Mercado do Bairro Alto]. Luis Paisana, vice-presidente da FAMALIS [Federação das Associações de Moradores da Área Metropolitana de Lisboa], recebe-nos na sede provisória de um dos sócios-fundadores da Rede DLBC Lisboa.

À FAMALIS já foi cedido um novo espaço para sede no Empreendimento da EPUL, mas o certificado energético tarda em chegar. A urgência de mudança de instalações é grande, até para atender fisicamente os seus dez associados e começar o processo de “reestruturação interna” da federação.

Esta organização emanada da sociedade civil nasceu há cerca de quatro anos “para contestar uma série de leis que a Câmara Municipal tinha feito implementar e que prejudicava os moradores dos bairros sociais. Através dessa plataforma muitas dessas leis foram suspendidas, revertidas, etc. Partindo desta vitória, avançou-se para a criação de uma federação, aberta a outras associações de moradores fora dos bairros municipais”, como são os casos da AMBA [no Bairro Alto, da qual Luis também faz parte], da ARAL [Alto do Lumiar] e da ART [Telheiras].

Todas estas associações locais de moradores procuram dar voz a problemas específicos, mas na FAMALIS a ideia é abordar os problemas transversais da cidade de Lisboa. Luis vive no Bairro Alto e por isso conhece bem o problema do ruído noturno, tal como outras questões na ordem do dia como o impacto do turismo na cidade, a higiene urbana, a mobilidade e estacionamento, e a segurança e proteção civil. Estes problemas comuns têm sido constantemente abordados nas Reuniões Descentralizadas da Câmara de Lisboa e nas reuniões da Assembleia Municipal. A nível mais macro, esta federação esteve ainda na Assembleia da República por alturas da discussão da Lei da Renda Apoiada, para a qual contribuiu com a “única proposta de lei não partidária”. “A lei aprovada tem inputs nossos”.

Um resistente a quem muitos gabam a resiliência, depois de algumas causas perdidas, o vice-presidente da FAMALIS é o porta-voz de uma certa “impotência” face à rápida transformação da cidade resultante do “boom turístico”, que acaba por se traduzir em “despovoamento”, “exclusão social” e “descaracterização” do seu bairro. Preocupa-lhe que a cidade tenha perdido 30% da população em seis anos, que ir às compras ou arranjar um lugar para estacionar seja uma odisseia para os locais que vão ficando, ou que se destruam facilmente fachadas e edifícios para construir tudo menos habitação para fixar residentes.

A relação com o poder local também não tem ajudado organizações como a FAMALIS a firmar-se: “As Juntas têm tirado poder às associações de moradores, fazendo o que estas faziam. As associações de moradores eram forças de proximidade, organizavam festas, passeios, reuniões. Hoje a Junta faz isso”. Já para não falar do não reconhecimento pela Câmara Municipal e por grupos informais de moradores, que pedem ajuda para resolver problemas específicos, mas que depois não querem assumir responsabilidades, não se tornando associados da federação.

Desengane-se, porém, quem pensa que Paisana não acredita que haja espaço para um turismo “diferente”, mais harmonioso com o dia-a-dia das comunidades locais em Lisboa, dirigido a “turistas que não querem só ver a Torre de Belém ou o Chiado”. E considera que uma moeda local, criada no seio da Rede DLBC Lisboa, podia alavancar um turismo comprometido com o  desenvolvimento local: “Por que não, para sobrevivência das organizações e das pessoas que vivem cá, haver um turismo que mostre o que é verdadeiramente a cidade, um bairro histórico… Por que não pôr os turistas a cavarem na horta, ver coisas genuínas, enquanto existem?”.

Luis gostaria que a “crise do associativismo” desse lugar a uma maior cooperação entre associações, até porque “esta cidade tem potencial de organização”. Preferia que o “trabalho de costas uns para os outros” fosse substituído por mais reconhecimento e diálogo. “Se calhar a FAMALIS não tem ideia do universo de associados [da Rede DLBC Lisboa], nem [d]o que fazem”. Um mapa com um perfil e contacto dos associados poderia ser importante para estabelecer “contacto”.

Da Rede DLBC Lisboa espera, daqui um ano, “mais mobilização”, “mais parcerias” e uma moeda local a mexer. Aos outros associados da rede a FAMALIS está disponível para dar formação. Depois de ter estrutura para implementar, pode, mais concretamente, “dar capacitação em Associativismo”.

 

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Toma lá dá cá, dá cá toma lá!

 

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Afinal, da mesma forma que o Mr. Jourdain do Bourgeois Gentilhomme, na célebre aula de francês básico, ficou surpreendido com o facto de sempre ter falado em prosa toda a sua vida sem o saber, nós podemos afirmar o mesmo em relação às trocas, melhor, à economia da troca. No meio destas trocas e baldrocas, a Carla Calado explica esta pluralidade e desafia a pensar projetos locais nesta base. (Carlos Ribeiro)

 

Desde sempre coexistiram várias Economias, tantas que podemos seguramente afirmar que a sua principal caraterística é ser plural, concretizando-se de muitas e complexas formas no nosso dia-a-dia.

 

Economias complementares

A crise económica internacional, uma ocorrência cíclica de todas as economias de mercado liberais, veio relembrar a importância das economias complementares que, face à escassez de dinheiro, proporcionem às comunidades e famílias novas formas de aceder a bens, recursos e serviços.

Exemplo disso são os movimentos de transição que têm vindo na surgir desde 2005. Com expressão um pouco por todo o Mundo, tem por objetivo tornar as cidades mais autossustentáveis, menos dependentes de recursos externos como o petróleo e reconcertadas com a natureza. Partindo da confirmação de que o Planeta vive acima das suas possibilidades, ensaiam-se soluções para que as sociedades se tornem mais resilientes face a pressões externas, tais como crises económicas.

Consumo colaborativo

Nesta linha de pensamento, assistimos à proliferação de iniciativas a uma escala global que preconizam formas mais colaborativas de economia (Economia Colaborativa, da Partilha ou Sharing Economy) nomeadamente o consumo colaborativo como meio de realizar esta transição. Neste contexto fala-se de “prossumidores” ou seja, os participantes são simultaneamente consumidores e produtores.

Transações sem recurso a dinheiro

Exemplos disso são os projetos de trocas, que se estimam sejam já centenas em Portugal. Na sua essência tratam-se de espaços (físicos ou virtuais) de transação de bens e/ou serviços sem recurso a dinheiro. Nestas iniciativas, na sua maioria lideradas por grupos informais ou nascidos no seio do movimento associativo, qualquer pessoa pode transacionar algo que possua (um artigo que já não utiliza, um dom ou serviço que possa proporcionar ou simplesmente o seu tempo) e obter algo de que precisa de forma direta ou indireta, geralmente através de um sistema de créditos ou moeda própria.

Quatro tópicos, quatro lições

Acima de tudo, estes projetos ajudam a recuperar lições importantes:

– Valorizar o tempo, os saberes e competências das pessoas como algo transacionável democratiza a economia. O que cada um sabe fazer e que não tem valor na economia de mercado passa a ser uma forma de gerar recursos e assim criam-se alternativas dignificantes em que os cidadãos recuperam o poder de agir sobre a sua situação económica.

– Viver em comunidade é um processo de negociação de Liberdades, mas as mais-valias são inestimáveis. Recuperam-se momentos de convívio e alargam-se as redes de entreajuda e suporte na vizinhança.

– O valor das coisas é relativo e podemos ser nós a dar sentido de justiça aos preços. Uma hora de uma pessoa tem sempre que valer mais do que de outra?

– A valorização do Bem Comum através da poupança, da reutilização e da recuperação dos hábitos de consumo de artigos em 2a mão é essencial para um futuro mais sustentável. Muitos dos projetos permitem a participação de crianças, o que estende o seu potencial educativo para a geração seguinte. Ainda, alguns recriam os materiais de artigos que não estão em estado de serem trocados para criar novos artigos que podem ser vendidos para gerar algum fundo de maneio.

Fazer muito com pouco

Principalmente, e mais importante num Mundo movido a dinheiro, os projetos de troca provam que é possível a qualquer conjunto de pessoas fazer muito com pouco (ou como nalguns casos nenhum) dinheiro.Como qualquer iniciativa, os projetos de trocas têm aspetos a melhorar. Embora encerrem muitas vantagens, é necessário ainda estudar como é que podem permitir que as pessoas tenham acesso a uma maior amplitude de bens e serviços, que muitas vezes se encontram circunscritos a roupas em 2a mão e alguns serviços que nem sempre são suficientes para quem se encontra, por exemplo, numa situação de grande fragilidade económica e social.

Projetos locais

Diria que a crise, como qualquer outra ocorrência menos positiva, encerra em si oportunidades para saltos qualitativos se a soubermos aproveitar para agir e aprender com o passado. Uma economia vibrante e resiliente é plural, assegurando o princípio fundamental do direito de todos acederem de forma autónoma e digna aos recursos mínimos que asseguram a sua qualidade de vida. Depende de todos nós fazer destes projetos locais um movimento unido, amplo e forte, que efetivamente constitua uma alternativa complementar, ou seja, mais do que uma reação ao momento.

 

Saber mais:

Patel, Raj (2010) “O Valor de Nada: como nos podemos salvar da insanidade financeira”, Editorial Presença, Lisboa

Movimento Internacional de Transição:  http://www.transitionnetwork.org/

Movimentos internacionais de economia colaborativa/da partilha: http://www.thepeoplewhoshare.pt/; http://www.shareable.net/; http://ouishare.net/en

 

Carla Calado

Mail: calado.carla@gmail.com

Linkedin: Carla Calado


Um namoro mais prolongado, pode ajudar

 

confinvenc%cc%a7o%cc%83es_carlaOs namoros têm desfechos imprevisíveis, mas pelos vistos, nas relações de parceria são de todo aconselháveis. A aprendizagem das funções partilhadas e da cooperação interinstitucional não – hierárquica, afinal precisa de alguns golpes de rins que o namoro ajuda a treinar. Namorar é preciso, assim afirma a Carla Batista e nós concordamos. (Carlos Ribeiro)

A Cafinvenções, associação cultural, artística e educativa sediada em Benfica participou, em 2013, no projeto Ameixoeira Criativa em parceria com a ALCC – Associação Lusofonia Cultura e Cidadania.

Como é que este organismo de um lado da cidade se junta com o outro? Esta parceria surgiu num encontro entre organismos e entidades diversificadas num workshop do programa BipZip, em Lisboa, onde procurávamos entender um pouco mais do programa.
Na verdade, é no diálogo entre uns e outros que se encontram ideias e relações de colaboração entre duas ou mais pessoas com vista à realização de um objetivo comum. E assim aconteceu!

Conhecemos a diretora da ALCC, uma senhora muito divertida e simpática que expôs, a título de exemplo, uma maquete de estudo do projeto que tratava de acolher uma população vulnerável e com baixos recursos económicos com a formação de costura e artesanato. Dizia a tom alto e de brincadeira que só precisava encontrar a costureira! E nós, que ouvimos o seu apelo, expusemos a nossa habilidade – artesanato e costura!

 

Experiência de costura e artesanato

A Cafinvenções constrói e produz espetáculos de marionetas desde longa data, ligada à companhia de teatro Mestre Filipe e as suas Marionetas. Na base desta experiência desenvolveu uma aptidão específica na costura e no artesanato. Temos sido formadoras e educadoras junto de várias populações, atuando no bairro do Bom Pastor, onde temos um espaço denominado TOIM – Teatro Oficina i Marionetas. A manufaturação de pequenas coisas como malas, chapéus, mantas, a alteração de roupa e a prática nos trabalhos artesanais envolvendo variados materiais constituíram-se como oferta capacitária da parceria Cafinvenções!

 

Namoro entre entidades

Ela gostou. Trocámos contactos, combinámos reuniões, debatemos o propósito e iniciativas, acordámos os valores perante as competências de cada entidade, concorremos e esperámos que o projeto ganhasse em candidatura!

E assim aconteceu, tornando-se rapidamente um caso de sucesso, confirmado aliás pela sua continuação no tempo. Como em todas as parcerias também surgiram conflitos entre as entidades parceiras. Muitas das vezes, esses conflitos são gerados pela falta de confiança mútua. Por isso é tão importante que haja um “namoro” entre as entidades para que o projeto flua no mesmo caminho e no mesmo sentido. Cada entidade parceira é apenas responsável pelo seu quinhão ou parte que deve colocar ao serviço da parceria e consequentemente deve lucrar nessa justa proporção . Mas é também no envolvimento, nas cumplicidades, nas ligações que se vão criando que enaltecem o trabalho conclusivo.

 

Envolver todos os parceiros

Houve mudanças de estratégia na fase de implementação do projeto que contaram com o apoio do mediador do programa financiador e a Cafinvenções optou por um certo distanciamento. Sentimos que a rede de parceiros tinha pouco envolvimento na gestão do projeto. Nesses termos a pergunta que se impõe é “como é que a parceria da Ameixoeira Criativa se pode organizar para que todos cumpram o seu papel e realizem as suas tarefas no projeto?”. Da nossa parte idealizámos ações, realizámos reuniões, juntámos e organizámos ideias a aplicar. Sonhávamos em concluir um projeto dinâmico, divertido, envolvente e prático. Garantiríamos que as pessoas saíssem motivadas a continuar a elaborar pequenos projetos e que, com ajuda da entidade parceira de empreendedorismo, ficassem aptas para avançar com o seu próprio negócio.

Votos de sucesso

Apesar das dificuldades surgidas fica aqui expresso o desejo que as alunas tirem proveito da sua participação e sigam um caminho futuro próspero e cheio de inovação e que o projeto da Ameixoeira Criativa tenha os melhores sucessos. Foi para isso que todos trabalhámos.

Carla Batista, diretora da Cafinvenções