[Entrevista GAL] Teresa Ricou, Chapitô: “As artes deverão estar sempre ao serviço da inclusão”

Sexta-feira, dia 19 de julho. Às 18 horas, na tenda do Chapitô, o simbólico desabrochar de uma flor vai dar o mote a “Ortus”, uma peça-denúncia à xenofobia e homofobia cocriada por uma dezena de alunos e pela professora Cláudia Nóvoa.

“Ortus” começa por aludir à representação do ciclo de vida e vai ser apresentada na última de quatro sessões do ciclo de Provas de Aptidão Profissional desta célebre Escola de Circo perante um júri muito diverso, que inclui gente de várias áreas, do mundo empresarial ao artístico, passando pelo político-institucional. Por exemplo hoje, do lado dos avaliadores, estará uma atriz, um empresário e um representante do Plano Nacional de Leitura, entre outros.

Uma hora antes, Teresa Ricou, também conhecida por Teté, a primeira mulher-palhaça portuguesa e assumida “mulher de guerrilha” que não consegue estar parada aos 72 anos, já nos tinha feito uma visita guiada à casa que fundou “com muita gente” em 1981, o Chapitô, hoje “uma máquina de 90 pessoas”. Tinha-nos apresentado no caminho jurados, alunos a serem maquilhados, ex-alunos da casa a regressarem onde foram felizes, professores que nos vão mostrar uma exposição no bar-biblioteca e responsáveis do “multicultural” Centro de Acolhimento de Animação para a Infância. Também já tinha oferecido M&Ms aos alunos, a quem desejou “muita merda” antes de entrarem em cena. “A finalidade [destas provas] é pôr estes meninos no mercado de trabalho”. Segue a entrevista a Teté para a Rede DLBC Lisboa, da qual o Chapitô faz parte há cerca de um ano.

 

 

O Chapitô autodenomina-se como Escola de Circo “a tempo inteiro”. Promete dois Cursos [Artes e Ofícios do Espetáculo de Circo] “com processos curriculares inovadores”. Inovadores em que sentido?
A formação e a avaliação contínua são uma forma interdisciplinar de passar o conhecimento. Mais que ensinar é [importante] educar, viver e aprender sob o signo de responsabilidade, com o compromisso e a cumplicidade entre professores e alunos numa escola onde a partilha diária deverá ser um grande objetivo.

Trabalhar o corpo na descoberta de todas as suas capacidades em total consonância com o pensamento, incentivar à leitura e à escrita no exercício intelectual… todas estas componentes são aplicadas igualmente ao exercício das manualidades, na construção dos seus próprios objetos de trabalho.

As artes deverão estar sempre ao serviço de inclusão, devidamente enquadradas no ambiente escolar, [entre] alunos e professores. [É importante] desenvolver por via da acrobacia o corpo, a solidariedade, um equilíbrio social.

[Seguimos] o movimento da escola moderna, que não avalia o resultado final, mas o processo. A formação faz-se fazendo, não se compra feita. O momento de hoje é a saída destes jovens para o mercado de trabalho. Se eles não estiverem preparados, voltam para fazer estudos.

Que competências são aferidas nas Provas de Aptidão Profissional, como aquelas a que vamos assistir hoje?
A Componente Cultural e artística; o Corpo/Circo, Acrobacia, Movimento e Dramaturgia; e Ofícios – Cenografia, Figurinos e Adereços.

Que outros projetos ativos têm, neste momento, nos campos da reinserção social e capacitação profissional?
Os centros educativos da Graça, Benfica e Caxias. Há 40 anos que fazemos este trabalho de inclusão social. Na prisão de Caxias temos uma tenda de circo lá dentro.

Um dos segmentos dos candidatos à escola vem dos centros educativos, mas temos filhos da alta sociedade, dos bairros, que estão presos, que vêm da rua, da Europa. É um público muito variado e só assim acredito na inclusão social, pluridisciplinar. [Nos espetáculos] já chegámos a ter na tenda o Centeno, que veio jantar, e um grupo de pessoas em situação de sem abrigo.

Já agora, quem integra a Trupe Sénior e que atividades levam a cabo?
Pessoas do bairro, em inteira ligação com centros de dia da Misericórdia, algumas Juntas de Freguesia e outros. Fazem trabalho de acolhimento, workshops, de formação e animação.

Que relação tem estabelecido o Chapitô com a comunidade onde estão inseridos, na Costa do Castelo?
Como intensificar a relação com a nossa junta, mesmo não sendo nós eleitores [desta freguesia]? É uma relação de equilíbrio. Estamos no arame, mas sabemos andar no arame. Fazemos mais atividade de animação com as Juntas de Freguesia da Misericórdia, no Bairro Alto, de Arroios e São Vicente… Não nos falta trabalho.

Em que se tem traduzido a ação do Chapitô em matéria ambiental, que sabemos ser uma preocupação premente no vosso dia-a-dia?
Em campanhas de ativar o desaparecimento dos plásticos do dia-a-dia, na reutilização de materiais, na oficina de ecodesign, na economia social, [n]uma forma respigadora de viver. Tenho esse “pensamento Agnès Varda” [cineasta, respigadora de imagens falecida em março passado].

Que triunfos destacaria nesta história de quase quatro décadas?
A saída de tantos jovens para o mundo do trabalho, por esse mundo fora, nas mais diversas situações. Temos um jovem que é surfista a tomar conta de uma ilha no México. A Sandra Barata Belo, o Manuel Marques e o César Mourão passaram por esta escola que é o Chapitô. [Criámos também] opinion makers nas áreas da história da moda, animações, entretenimento. A semente foi plantada e germinou. Porquê? Porque foi regada todos os dias. Isso chama-se avaliação contínua.

 

 

Destaque uma experiência negativa que vos fez crescer enquanto organização.
A urgente organização administrativa/ cultural como suporte à criação e à manutenção da nossa economia social.

Por falar em economia social, como se transforma um projeto como o Chapitô num projeto sustentável economicamente?
O que se chama economia social? A economia social é as pessoas conseguirem criar, inventar, ter iniciativa e desenvolverem-na. O meu plano de ação na construção deste projeto era ter uma área que sustentasse a área da cultura. Temos um restaurante [Restô], temos a parte de produção de espetáculos, animações, trabalhamos muito com os hotéis, fazemos muito team building, trabalhamos com grandes empresas… Isto chama-se investimento.

Há uma parte que é rentável dentro do nosso modelo de gestão que depois investimos na área social, sendo que temos parceiros oficiais, como a Câmara Municipal de Lisboa. Dos muitos pequenos apoios que temos, estão envolvidos aqui institucionalmente. O grande apoio financeiro que a gente tem é o trabalho de iniciativa local.

É preciso ser muito persistente, senão não se chega lá. É preciso defender e regular a qualidade, o acolhimento, saber falar, [revelar] cultura de qualidade. É muito importante o público turista, porque se mistura com os outros e traz também outras culturas.

“Olhar para longe sem medo do futuro” é um dos lemas da Trupe Sénior do Chapitô. Poder-se-á estender este desígnio à visão do Chapitô?
Desde a sua origem, dos 8 aos 80.

 

 

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