[Entrevista] MOOC Dys: Um instrumento interativo para compreender melhor a Dislexia

O que é o MOOC Dys? É um curso online especialmente desenhado para pais e professores de crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem do espectro da dislexia. Mas é mais do que um espaço formativo: é também uma plataforma interativa e uma rede de entreajuda criada no âmbito do programa Erasmus+. José Fernandes, representante da Rede DLBC Lisboa neste consórcio transnacional, revela o estado da arte de um projeto que quer contagiar e envolver a sociedade civil e o poder local.

 

O curso MOOC Dys está disponível online desde novembro de 2018. Quer partilhar connosco alguns dos conteúdos desta formação?

O curso tem a duração de seis semanas, correspondentes a módulos, com um tronco comum de três módulos de generalidades sobre esta problemática [O que é a Dislexia e o que não é; Estatísticas; Estereótipos; Sintomas;  Viver com Dislexia; Fontes credíveis, etc.]. A seguir a este tronco comum incluímos um módulo sobre o Contexto Nacional, relativo à situação em Portugal, designadamente sobre o quadro legal. Seguem-se mais duas semanas, com conteúdos especialmente destinados a famílias e profissionais da educação.

 

O módulo sobre o Contexto Nacional inclui informações sobre a nova lei da Educação Inclusiva, que vem substituir um decreto anterior que regulamentava a chamada Educação Especial…  

Exato. O decreto-lei 54/2018 considera que todos os alunos são especiais e a educação deve ser inclusiva e que cada escola tem que encontrar para cada aluno as medidas adequadas para ele ter sucesso. Esta mudança de paradigma criou um certo caos nas escolas, pois implica uma mudança de métodos que as atuais condições de funcionamento de muitas escolas não têm possibilidade de assegurar.

 

Há um grande desconhecimento em Portugal, inclusive nas escolas, sobre as dificuldades de aprendizagem causadas pela dislexia. Quer resumir, para leigos, em que consiste esta perturbação da aprendizagem.

Em Portugal, quando se fala em dislexia abrange-se vários distúrbios neurobiológicos, que consistem, simplificadamente, em desordens no processamento neuronal das informações recebidas pelo cérebro. A dificuldade de leitura, que para simplificar é a face visível da dislexia, normalmente está associada a outras “Dys” [disgrafia, disortografia, dispraxia, discalculia, disfasia]. Ou seja, a dislexia são várias “Dys”, que ocorrem numa mesma pessoa e se sobrepõem em várias combinações.

Cada pessoa é um caso e há vários níveis de perturbação: leve, moderada e severa. As “Dys” não têm cura, permanecem toda a vida, mas há estratégias para as contornar. As pessoas com dislexia aprendem a ler, com dificuldade mas aprendem. No ensino, é necessário fornecer-lhes medidas de apoio e adaptações pedagógicas que lhes permitam alcançar as metas curriculares. Ou seja, as escolas e os professores têm uma grande responsabilidade para com estes alunos.

 

 

 

Que respostas pretende dar este curso às pessoas que lidam com crianças e jovens com dislexia no dia-a-dia?

Pais, professores, entidades comunitárias e autoridades locais têm no MOOC Dys um instrumento para reconhecer se há na sua família, na sua sala de aula, no seu bairro, no seu território, crianças e adolescentes com estes problemas. Simultaneamente têm aqui um instrumento para os ajudar a compreender e a contornar a situação.

 

Que outras virtudes apontaria a este curso?

Em Portugal, esta é uma ferramenta única: aberta, gratuita, disponível para toda a gente. Há informação disponível online, designadamente o  site da Dislex – Associação Portuguesa da Dislexia, que é parceira associada do projeto, mas não tem as caraterísticas interativas que tem o MOOC Dys.

 

A propósito, qual tem sido aqui o papel da Dislex, neste projeto?

Dá apoio científico. A Professora Helena Serra, sua presidente da direção, é uma das pessoas que mais sabem de dislexia no país. Investiga e ensina sobre o tema há dezenas de anos. Quando temos dúvidas, a Dislex esclarece-nos.

 

No final do curso que conhecimentos é suposto ter-se adquirido?

Se a pessoa com “Dys” não tem a consciência de que tem aquela dificuldade específica e que há maneiras de a contornar, pode ficar com a vida destruída. Este é o primeiro objetivo: tomar consciência da ou das “Dys”.

Estes jovens e crianças podem sofrer a vida toda. Muitas vezes são acusados – pelos colegas, por familiares que ignoram o distúrbio e até por professores – de estúpidos, porque não sabem ler, e de preguiçosos, porque não querem é estudar.

Esses casos de não diagnóstico geram má escolaridade, falta de competências, o que se vai repercutir em subempregos e empregos mal pagos, problemas psicológicos e uma vida social muito pobre, de um modo geral.

O segundo objetivo do MOOC Dys é fornecer a famílias e profissionais da educação conhecimento e instrumentos de apoio à sua ação junto das crianças e adolescentes com “Dys”. Esse é o conteúdo dos dois últimos módulos do MOOC Dys.

 

O MOOC Dys é uma plataforma que aposta bastante na imagem.

Sim, temos vídeos, apresentações, mapas interativos, gráficos… Procurámos utilizar aplicações que facilitam a memorização e a interatividade.

 

 

Paralelamente ao curso, há um fórum, mas a interatividade não se limita a este canal.

O conceito da plataforma que usamos inclui uma rede. Todos os participantes estão em contacto uns com os outros, se quiserem. No módulo específico para os pais temos ainda uma secção dedicada à constituição de redes de suporte entre pais, tanto físicas, como online. Temos também um website sobre o projeto e uma página no Facebook… As pessoas precisam de comunicar sobre este tema…

 

No Facebook, que outras páginas existem sobre este assunto?

No Facebook existe o grupo dos Pais de Jovens Disléxicos, criado pela Mafalda Justino [da Associação Portuguesa da Dislexia], que trabalha connosco neste projeto. Há ainda o Espaço 54 – Grupo de Apoio à Educação Inclusiva, sobre a nova lei, que é fundamentalmente de professores e com cerca  de 15.000 utilizadores.

 

O consórcio arrancou em outubro de 2017, envolvendo seis países com valências e abordagens distintas…  

Nós, Rede DLBC Lisboa, somos uma instituição de Desenvolvimento Local. O parceiro francês é especializado em formação a distância. Os belgas são uma empresa especializada em fonologia e dislexia. O parceiro italiano é um centro de formação profissional para jovens com necessidades especiais de educação. Os gregos são dum gabinete regional do Ministério da Educação. Integra ainda o consórcio a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Pitesti, na Roménia.

 

 

Pode resumir os principais passos deste processo até à data em que o curso ficou disponível online?

Tivemos seis meses de preparação e pesquisa. Em Portugal, como nos outros países, fizemos dois inquéritos online, um dirigido a professores, outro a pais, para fazer um levantamento de necessidades. Tivemos 170 respostas num e 160 noutro. No total dos países tivemos cerca de 2000 respostas.

O segundo semestre foi para o desenvolvimento dos conteúdos e inserção na plataforma online. A base foi feita em inglês. Depois, cada parceiro traduziu para a língua do seu país mas fazendo o que se designa por “transcreation”, que é uma adaptação à realidade e ao contexto nacional. Porque uma coisa que pode ser muito interessante em França pode ser absolutamente absurda para um professor em Portugal. Digamos que o ciclo foi este: investigou-se, produziu-se, traduziu-se adaptando, editou-se…

 

2019 é um ano decisivo para a plataforma…

Em fevereiro vamos fazer um ponto de situação. Temos ainda que fazer um toolkit para disseminar maciçamente o curso e estamos a fazer um esforço para aumentar o número de participantes… O MOOC tem que estar no terreno, não é para ficar a pairar online

 

Onde podiam entrar os associados da Rede DLBC Lisboa?

Vamos fazer divulgação junto dos associados que têm possibilidades, pela sua ação e pelas pessoas que mobilizam, de utilizar o MOOC Dys, que é um instrumento que dá para trabalhar comunitária e localmente. Uma junta de freguesia ou uma associação de bairro, ou ambas, podem utilizar esta ferramenta em cooperação com as escolas locais, para despistar situações, para formar consciência sobre o tema, para dar apoio a famílias e professores. Talvez já em março façamos um encontro de formação com associados da Rede DLBC e outras instituições.

 

A plataforma fica inativa em setembro, quando terminar o consórcio?

Mesmo que não se acrescente mais nada de conteúdos, a plataforma tem que ficar cinco anos ativa, de acordo com as regras do Erasmus+.

 

Que falhas tem encontrado no sistema educativo nesta matéria?

Não há rastreios, não há despiste de situações, e muitos dos professores não têm formação adequada para lidar com alunos com dificuldades de aprendizagem. O professor, além de ensinar, tem que ter o papel de mediador entre estes alunos e a escola. Tem que ser um educador para a não discriminação de alunos, tenham eles as dificuldades que tiverem.

 

Que aptidões desenvolvem as crianças e os adolescentes com perturbações do espectro da dislexia?

Todas as pessoas com “Dys” têm capacidades, a par dessas dificuldades. Normalmente em tudo o que é criatividade, eles têm grande facilidade. Há os que têm muito desenvolvida o que se designa por inteligência física, com grandes aptidões para o desporto, como é o caso do conhecido judoca Nuno Delgado. É preciso perceber o que é que cada um tem de pontos fortes e ajudar a desenvolver esse potencial.

 

O que é que os não-disléxicos podem aprender com as pessoas com dislexia?

Aprender a superar dificuldades. A serem esforçadas e persistentes. Pois as pessoas com “Dys” que conseguem dar o passo em frente são extremamente persistentes.

 

 

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